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Empresas investem em educação básica para qualificar a indústria

Escrito por Duda Fonseca | Aug 10, 2026, 1:14:04 PM

Se Paulo Freire afirmou que “educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem ela tampouco a sociedade muda”, Benjamin Franklin resumiu essa mesma lógica ao modo econômico ao dizer que “investir em conhecimento paga os melhores juros”.

Seja para o desenvolvimento pessoal ou financeiro, a educação é fundamental e necessária tanto para a sociedade como para os negócios — e algumas empresas já perceberam isso, transformando o tema em parte central de sua estratégia corporativa.

São os casos da Ypê, empresa do setor de higiene e limpeza, e da Tupy, multinacional do setor de metalurgia. As duas mantêm investimentos consistentes em programas internos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para qualificação profissional, retenção de talentos e fortalecimento da cultura organizacional.

Apesar dos projetos nas grandes empresas, o Brasil ainda convive com gargalos estruturais de escolarização. Dados do relatório “Education at a Glance 2025”, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mostram que o país continua abaixo da média internacional em indicadores educacionais e de qualificação da força de trabalho.

Além disso, estudos recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontam que o aumento da escolaridade continua sendo um dos fatores centrais para elevar a produtividade e a qualidade da força de trabalho brasileira.

Em análises recentes sobre capital humano e produtividade, o Instituto destaca que trabalhadores com menor escolaridade permanecem mais concentrados em ocupações de baixa produtividade, maior precarização e menor mobilidade profissional.

Para conhecer melhor as experiências das duas empresas, conversamos com Cristiane Lacerda, diretora de gente, cultura, diversidade e inclusão da Ypê, e Fernando Toledo, gerente de gestão de talentos da Tupy.

Na Tupy, mais de 1.600 trabalhadores já se formaram

O programa de Educação de Jovens e Adultos da Tupy, realizado em parceria com SESI e SENAI, completa duas décadas neste ano.

A iniciativa nasceu da necessidade de ampliar o acesso à educação básica entre colaboradores e familiares que não haviam concluído os estudos. Segundo Fernando, hoje o programa é “a base para a qualificação técnica, para a adaptação a novas tecnologias e para o crescimento profissional dentro das empresas”.

Desde sua criação, mais de 2.500 pessoas passaram pela EJA da companhia, com cerca de 1.600 colaboradores formados até 2025. Os participantes são majoritariamente trabalhadores de entrada das operações industriais, especialmente entre 25 e 35 anos.

Fernando diz que, com o tempo, a iniciativa acabou se tornando uma ferramenta de retenção e mobilidade interna. “Muitas das nossas vagas exigem o ensino médio completo como requisito mínimo. Com o programa, os colaboradores se sentem valorizados e apoiados em sua trajetória, o que fortalece o engajamento e o senso de pertencimento.”

Para a Tupy, o investimento ajuda a formar profissionais mais alinhados à cultura organizacional e às exigências técnicas da indústria contemporânea.

“Quando a nossa gente cresce, a Ypê cresce junto”

O programa Educary, da Ypê, surgiu em 2018 na universidade corporativa da companhia, a Unypê. Ele foi uma resposta da companhia a um problema recorrente nas operações: parte dos trabalhadores não havia concluído o ensino fundamental ou médio.

“O Educary nasceu quando percebemos um desafio importante na nossa realidade, que impactava não só a vida pessoal desses trabalhadores, mas também o acesso a novas oportunidades de desenvolvimento profissional”, explica Cristiane.

Desde então, cerca de 150 colaboradores já concluíram seus estudos pelo programa. As aulas acontecem presencialmente nas próprias unidades fabris, com professores especializados em EJA e conteúdo reconhecido pelo MEC.

Além da formação acadêmica, a empresa passou a incluir no programa o letramento digital para aproximar os trabalhadores das novas tecnologias industriais. Segundo Cristiane, a proposta busca combinar formação básica e inclusão produtiva. “Não existe evolução, inovação ou transformação digital sem uma base sólida de educação, letramento e cidadania.”

O programa também inclui um olhar individualizado para os alunos. Como aconteceu com um colaborador com deficiência visual congênita, que recebeu um computador customizado para concluir os estudos.

Além do impacto educacional, a Ypê já observa efeitos diretos sobre engajamento e pertencimento dos colaboradores. “Muitas pessoas que antes se colocavam à margem passaram a se sentir parte ativa da Ypê, mais seguras para se comunicar, aprender e buscar novos caminhos de desenvolvimento”, acrescenta a executiva.

A companhia também passou a transformar as formaturas em cerimônias simbólicas de reconhecimento público, com a participação de suas lideranças. E os reflexos aparecem inclusive em indicadores operacionais.

Em 2023, a Ypê atingiu 99,56% em seu indicador de Volume Produzido com Qualidade, acima das metas internas — resultado que a companhia credita também ao aumento da qualificação da base operacional.

Agora, o próximo passo é ampliar o programa. A meta é contemplar mais de 200 colaboradores em novas turmas de ensino fundamental e médio, além de aprofundar a integração tecnológica do aprendizado às demandas da chamada Indústria 4.0. “O objetivo é consolidar a educação como um benefício ilimitado e transformador”, conclui Cristiane.

Educação, produtividade e futuro do trabalho

O avanço desses programas ocorre em meio a uma mudança importante no debate sobre produtividade.

Instituições como a OCDE e o Ipea vêm defendendo que a competitividade econômica depende cada vez mais de qualificação, capacidade de adaptação tecnológica e aprendizagem contínua.

Outro estudo do Ipea aponta que a qualidade da educação e a renda do trabalho possuem relação direta, reforçando que a escolarização não impacta apenas a empregabilidade, mas também a produtividade econômica e os salários.

O relatório “Education at a Glance 2025”, da OCDE, mostra que trabalhadores com maior escolaridade tendem a ter empregos mais estáveis e rendimentos significativamente maiores. No Brasil, adultos com ensino superior chegam a ganhar, em média, 148% mais do que trabalhadores com apenas ensino médio — percentual acima da média da organização.

Na prática, empresas começam a perceber que déficits educacionais impactam diretamente:

  • produtividade;
  • capacidade de inovação;
  • adaptação tecnológica;
  • formação de lideranças;
  • retenção de talentos.

Impactos da educação básica para os negócios

Para a executiva da Ypê, o investimento em educação básica passou a ser parte da estratégia de longo prazo das empresas: “Ela é a porta de entrada para o aprendizado contínuo. É a partir dela que o colaborador ganha confiança para seguir estudando, acessar novas formações e se preparar para os desafios do mundo do trabalho”.

Já o gerente de gestão de talentos da Tupy relaciona o tema à sustentabilidade industrial do país: “Ao investir em educação básica, fortalecemos também nossa capacidade de atrair e reter talentos em um setor que demanda cada vez mais qualificação.”

No momento em que a inteligência artificial domina o debate sobre o futuro do trabalho, empresas brasileiras começam a chegar a uma conclusão mais concreta e menos futurista. Antes de preparar trabalhadores para operar novas tecnologias, é preciso garantir a base sobre a qual qualquer transformação se sustenta: a educação. Afinal, o segredo da Indústria 4.0 não está nas máquinas e nenhuma organização se mantém de pé quando o alicerce é frágil.

6 benefícios para as empresas ao investir em educação:

 

  • Retenção de talentos: os funcionários passam a perceber uma oportunidade de crescimento e permanência na empresa.
  • Engajamento: há um aumento do senso de pertencimento e valorização entre os colaboradores.
  • Produtividade: ocorre uma melhora na qualificação operacional e na adaptação a novas tecnologias.
  • Cultura organizacional: a cultura de aprendizagem contínua dentro da empresa é fortalecida.
  • Inclusão produtiva: são ampliadas as oportunidades profissionais para trabalhadores com baixa escolaridade.
  • Futuro do trabalho: garante-se a preparação dos colaboradores para a automação, inteligência artificial (IA) e as novas demandas industriais.