Ninguém duvida que a inteligência artificial impacta a rotina e o mercado de trabalho. Um novo termo aparece agora em apresentações de executivos e discussões corporativas: AI First, que, em português, significa “inteligência artificial em primeiro lugar”.

Mais do que utilizar ferramentas de IA para otimizar processos, o conceito AI First propõe colocar a inteligência artificial no centro da estratégia da companhia, como ponto de partida para decisões, criação de produtos e serviços e operação de negócios.

Grandes empresas já anunciaram que adotaram o conceito – e, para além disso, se autodefinem como AI First. No Brasil, é o caso do Nubank. Em 2025, o então CTO da companhia, Vitor Olivier, um dos primeiros funcionários do banco, disse que o objetivo era aplicar IA em todos os departamentos da fintech e alcançar ganhos de eficiência, segurança e confiança do cliente.

No setor financeiro, a inteligência artificial pode ser usada para evitar fraudes quando, por exemplo, os bancos usam os dados dos clientes e conseguem mapear as rotinas ou localização do usuário, para o sistema conseguir identificar gastos fora do padrão de consumo, por exemplo.

Conversamos com dois executivos que trabalham com inteligência artificial sobre a adoção do novo modelo e as mudanças no mercado de trabalho: Bruno Szarf, VP Global de People & Performance do Grupo Stefanini, multinacional brasileira que fornece serviços de tecnologia, e Wagner Martin, VP de Relações Institucionais da Veritran, empresa de tecnologia que atua com o desenvolvimento de soluções financeiras.

O que é AI First

Se no começo dos anos 2010 as empresas passaram a desenvolver soluções pensando primeiramente na experiência dos celulares (mobile first), agora, o conceito AI First prioriza a criação de sistemas, serviços e produtos já pensando no uso da IA desde a concepção.

Apesar de muito se falar sobre o uso de IA nas empresas, fazer com que a companhia coloque a inteligência artificial em primeiro lugar não é simples.

“A empresa AI First tem o core business pensado a partir da inteligência artificial. Ela trabalha com a tecnologia, tem redes neurais, algoritmos, inclusive gera códigos e utiliza automação de inteligência artificial nos seus próprios processos”, explica Wagner Martin.

Martin destaca que o desafio vem antes do treinamento das equipes em geral. Para conseguir se tornar AI First, a companhia precisa ter uma área de tecnologia robusta para preparar a linguagem, a rede e os algoritmos.

“É uma nova forma de pensar em como se aplica inteligência artificial, em como se repensa as ferramentas e os processos. Não é simplesmente fazê-los da mesma forma habitual, com velocidade ou eficiência maior”, afirma Bruno Szarf.

Depois que o time de tecnologia implanta o modelo, cabe ao RH e às lideranças facilitarem treinamentos e novos métodos de trabalho junto aos colaboradores.

Martin avalia que as soluções de IA costumam ser intuitivas e simples. Szarf conta que, no Grupo Stefanini, foi instituído um programa de embaixadores.

“Treinamos as pessoas com a metodologia AI First entre grupos que são mais seniores, intermediários e iniciantes, todos de maneira conectada. Isso se transformou em cem squads, que estão ajudando na melhoria e qualificação de todos os produtos e serviços”, explica.

Como a lógica AI First beneficia as empresas?

O processo pode ser custoso e longo, já que necessita de uma equipe de tecnologia dedicada e um sistema funcional, além de treinamentos eficientes. No entanto, traz benefícios, como:

  • Automatização de tarefas repetitivas;

  • Personalização em escala, com experiências adaptadas a cada cliente;

  • Tomada de decisões orientada por dados, com maior velocidade;

  • Criação de produtos com ciclos de desenvolvimento mais rápidos;

  • Agilidade no atendimento com assistentes virtuais e roteirização inteligente.

Quais os riscos para os profissionais?

Se, por um lado, a adoção da inteligência artificial é uma oportunidade para as empresas, por outro acende um alerta para os colaboradores.

No fim de abril, a plataforma de ensino de idiomas Duolingo publicou, no LinkedIn, a decisão de se tornar AI First. No comunicado oficial, o CEO da companhia, Luis von Ahn, disse que a empresa se preocupa “profundamente” com as equipes, que faria treinamentos e mentorias, mas deixou claro que deixaria de contratar prestadores que fizessem tarefas que poderiam ser desenvolvidas pela IA.

Logo depois, a Duolingo lançou 148 novos cursos que foram desenvolvidos com ajuda da IA generativa. No texto para os investidores, a empresa diz que, historicamente, um único curso levava anos para ser criado. Em menos de um ano, o Duolingo desenvolveu dezenas de outros conteúdos da mesma forma.

Para Martin, quando uma empresa adota o conceito AI First, não há necessariamente um corte no quadro de funcionários, mas uma mudança de funções. Enquanto as tarefas mais simples podem ser automatizadas, as mais complexas e estratégicas continuam a cargo de humanos.

“Se a empresa tem inteligência artificial trabalhando para ela, passa a ter capacidade de prover mais serviços, promovendo uma escalabilidade. Ela terá mais clientes e precisa de equipes para atender estas pessoas. Isso continua funcionando”, diz Martin.

Ele acredita que haverá uma aceleração de carreiras, e os colaboradores alcançarão cargos sêniores mais rápido. “Essa é uma visão que o mercado ainda não está tendo, mas vai acontecer. É disruptivo.”

Além das transformações nas rotinas, também é necessário uma mudança cultural. “Exige mudar a maneira como a empresa pensa, opera e aprende. Não é um upgrade técnico, mas uma transformação cultural”, afirma Szarf.

O que dizem as pesquisas

Um estudo realizado pela LCA em parceria com a 4a intelligence estima que, no Brasil, mais de 31,3 milhões de profissionais desenvolvem tarefas que podem ser substituídas pela IA generativa, como o ChatGPT. Desse total, 5,5 milhões já estão em atividades com alto risco de substituição.

Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de maio de 2025 indicou que uma a cada quatro vagas de emprego no mundo pode ser transformada pela IA generativa.

Aqui vale o destaque: o resultado mais provável, dizem os pesquisadores, será a transformação – e não a substituição – de empregos.

O risco deve ser maior em países de alta renda e em vagas administrativas, que são facilmente automatizadas. O estudo também indica que as mulheres estão mais expostas e que políticas públicas de transição são fundamentais para garantir a qualidade do emprego.

Os pesquisadores separaram as profissões em quatro grupos, chamados de “gradientes” – com maior ou menor exposição e possibilidades de desemprego em relação ao uso de IA.

Apenas 3,3% dos trabalhadores globais se enquadram na categoria em situação mais crítica.

Veja abaixo as categorias e as ocupações:

Gradiente 1: A maior parte das tarefas tem pouco risco de automatização.

  • Especialistas em métodos de educação

  • Psicólogos

  • Profissionais jurídicos e associados

  • Fotógrafos

  • Caixas e balconistas de bilhetes

  • Físicos e astrônomos

  • Técnicos em ciências da vida (exceto médicos)

  • Assistentes de vendas em lojas

  • Técnicos de pré-impressão

  • Leitores de medidores e coletores de máquinas de venda automática

  • Gerentes de hotéis

  • Técnicos de galerias, museus e bibliotecas

  • Arquivistas e clerks de cópia

  • Mensageiros, entregadores de pacotes e carregadores de bagagem

  • Assistentes médicos

  • Vendedores de barracas e mercados

  • Motoristas de carros, táxis e furgões

Gradiente 2: São profissões que misturam tarefas que podem e não podem ser automatizadas.

  • Designers gráficos e multimídia

  • Analistas de sistemas

  • Profissionais de bancos de dados e redes não classificados em outras categorias

  • Profissionais associados em contabilidade

  • Representantes comerciais

  • Funcionários fiscais do governo

  • Engenheiros de telecomunicações

  • Sociólogos, antropólogos e profissionais relacionados

  • Planejadores de eventos e conferências

  • Agiotas e emprestadores de dinheiro

  • Gerentes de filiais de serviços financeiros e seguros

  • Instrutores de tecnologia da informação

  • Arquivistas e curadores

  • Filósofos, historiadores e cientistas políticos

  • Apresentadores de rádio, televisão e outras mídias

  • Técnicos de suporte ao usuário de TIC

  • Analistas de gestão e organização

  • Escriturários de biblioteca

  • Vendedores porta a porta

  • Profissionais de recursos humanos e carreiras

  • Avaliadores e peritos de perdas

  • Funcionários de benefícios sociais do governo

  • Apostadores, crupiês e trabalhadores relacionados

  • Gerentes de serviços de TIC

  • Gerentes de varejo e atacado

  • Cartógrafos e agrimensores

  • Corretores comerciais

  • Agentes de serviços empresariais não classificados em outras categorias

  • Escriturários de produção

  • Profissionais de relações públicas

  • Supervisores de escritório

  • Funcionários de licenciamento do governo

  • Técnicos de operações de TIC

  • Técnicos de redes e sistemas de computadores

  • Cobradores de dívidas e trabalhadores relacionados

  • Lojistas

  • Gerentes de serviços e administração empresarial não classificados em outras categorias

  • Engenheiros eletrônicos

  • Trabalhadores de informação ao cliente não classificados em outras categorias

  • Demonstradores de vendas

  • Gerentes de vendas e marketing

  • Profissionais de treinamento e desenvolvimento de pessoal

  • Carteiros e classificadores de correspondência

  • Biólogos, botânicos, zoólogos e profissionais relacionados

Gradiente 3: Algumas tarefas permanecem menos expostas, mas o potencial geral de automação está crescendo.

  • Tradutores, intérpretes e outros linguistas

  • Secretários

  • Caixas de banco e escriturários relacionados

  • Atendentes de call center (informações)

  • Escribas e trabalhadores relacionados

  • Consultores financeiros e de investimentos

  • Programadores de aplicativos

  • Designers e administradores de bancos de dados

  • Administradores de sistemas

  • Profissionais associados em estatística e matemática

  • Agentes de despacho e encaminhamento

  • Atendentes de informações

  • Recepcionistas

  • Matemáticos, atuários e estatísticos

  • Consultores de viagens e escriturários

  • Profissionais de publicidade e marketing

  • Desenvolvedores de software e analistas de aplicativos não classificados em outras categorias

  • Bibliotecários e profissionais de informação relacionados

  • Economistas

  • Autores e escritores relacionados

  • Secretários jurídicos

  • Entrevistadores de pesquisas e estudos de mercado

  • Meteorologistas

  • Jornalistas

  • Secretários administrativos e executivos

  • Operadores de telefonia

  • Desenvolvedores de software

  • Representantes de seguros

  • Secretários médicos

  • Técnicos web

  • Profissionais de redes de computadores

  • Técnicos de registros médicos e informações de saúde

  • Contadores

  • Profissionais de vendas de tecnologia da informação e comunicação

  • Recepcionistas de hotéis

  • Revisores e copidesques

  • Profissionais de vendas técnicas e médicas

  • Escriturários de transporte

Gradiente 4: A maior parte das tarefas tem alto risco de serem automatizadas.

  • Digitadores de entrada de dados

  • Datilógrafos e operadores de processamento de texto

  • Escriturários de contabilidade e escrituração

  • Escriturários de estatística, finanças e seguros

  • Corretores de títulos e finanças

  • Trabalhadores de apoio administrativo não classificados em outras categorias

  • Analistas financeiros

  • Escriturários de folha de pagamento

  • Vendedores de call center

  • Desenvolvedores web e multimídia

  • Agentes de crédito e empréstimos

  • Escriturários de escritório geral

  • Escriturários de pessoal

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Luciane Scarazzati
Luciane Scarazzati

Acredita no poder transformador da informação e da educação. Após a graduação em jornalismo, fez uma especialização em Marketing e Comunicação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e mestrado em Comunicação Digital no Celsa/Sorbonne Université, na França. Atuou nas equipes que lançaram a CNN Brasil e o site G1 e também trabalhou em outros importantes veículos, como TV Globo e UOL.

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