Férias ilimitadas: conheça o benefício que é tendência em empresas como Netflix e Microsoft

Empresas como Netflix, Microsoft e Goldman Sachs implantaram o benefício das férias ilimitadas para seus colaboradores. Entenda como o benefício funciona.

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O executivo Reed Hastings, cofundador da Netflix, escreveu em seu livro “A Regra É não Ter Regras” (Editora Intrínseca, 2020) que um questionamento feito por um funcionário o fez olhar de forma diferente para as férias.

Na ocasião, o colaborador perguntou: por que os dias de férias eram contabilizados se as horas trabalhadas (às vezes tarde da noite ou aos finais de semana) não eram? Na obra, Hastings diz que não havia resposta para a pergunta.

Daí surgiu a ideia de eliminar a política de férias, que passou a ser, simplesmente, “tire-as!”. A sugestão veio de Patty McCord, na época, executiva de Recursos Humanos da empresa.

A novidade foi implantada em 2003. Desde então, outras companhias do setor de tecnologia também adotaram o chamado PTO (paid time off), ou folga remunerada na tradução para o português.

Também conhecidas como férias ilimitadas, esse tipo de benefício flexível permite que funcionários possam tirar períodos extras de folga além das suas férias garantidas por lei.

Além da Netflix, companhias como o LinkedIn, Salesforce e Adobe também oferecem o benefício. Em 2022, foi a vez do Goldman Sachs, um dos maiores bancos do mundo, adotar o modelo. E, no começo do ano passado, a Microsoft instituiu o benefício para funcionários que trabalham em regime integral.

Em comunicado divulgado na ocasião, Kathleen Hogan, diretora de pessoas da big tech, afirmou que no pós-pandemia a forma de se trabalhar mudou drasticamente, logo, “modernizar a política de férias para um modelo mais flexível” era um movimento natural.

Como funciona a política de férias ilimitadas da Justos

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Shirlei Cardoso, analista de recursos humanos da Justos: colaboradores têm autonomia para decidir quando querem usufruir das férias ilimitadas, basta avisar o gestor

No Brasil, poucas empresas oferecem as férias ilimitadas, mas existem alguns exemplos entre companhias mais novas. São empresas de tecnologia que já nasceram com o benefício, justamente, por terem se inspirado em exemplos de fora do Brasil.

Esse é o caso da startup de seguros Justos, que nasceu em 2021 e conta com 70 funcionários, onde a ideia das férias ilimitadas veio de um dos fundadores, Antônio Molins, que havia trabalhado na Netflix.

Shirlei Cardoso, analista de recursos humanos da Justos, explica que toda a organização é feita pela pessoa que vai se ausentar. Por lá, todos os colaboradores têm direito ao benefício que não possui limite de dias para serem usufruídos. A política também é válida para as outras localidades em que a startup está presente, como Espanha, Canadá, Moçambique e Colômbia.

“Essas férias são os dias que os colaboradores entendem que precisam se ausentar. Seja por uma razão pessoal, seja porque ele precisa descansar ou qualquer outra. Não importa o motivo. Esses dias, além de serem remunerados, não são descontados do período de férias previsto na legislação de cada um desses países”, afirma a analista.

No caso da Justos, não há qualquer tipo de formalidade para a solicitação, basta que pedido seja alinhado com o líder e time e ninguém seja pego de surpresa.

“Quem trabalha mais próximo do colaborador deve ser comunicado. Fora isso, pedimos para que a pessoa coloque um aviso na agenda e no Slack para que toda a empresa saiba que naquele período ela está fora”, diz Shirlei.

A analista, que geralmente trata das entrevistas de desligamento, diz que as férias sempre são elogiadas e destacadas como um ponto positivo da startup de seguros.

Shirlei afirma, no entanto, que às vezes há uma certa confusão entre os períodos relacionados ao benefício e aqueles das férias regulares, previstos em lei pela CLT.

“Às vezes eu procuro alguém com férias próximas de vencer e a pessoa diz ‘mas eu já tirei na data x’. Mas no caso, o que ela tirou foram os dias das férias ilimitadas. Temos ainda um desafio de administrar essa questão de unir as férias ilimitadas com férias legais”, diz.

Na Nilo Saúde, férias ilimitadas são usadas para incentivar autonomia

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Victor Marcondes, cofundador e diretor de RH da Nilo Saúde: colaboradores utilizam os dias a mais de férias para estudar fora, estender a licença-maternidade ou paternidade ou cuidar da saúde mental

Na healthtech Nilo Saúde, que nasceu há quatro anos e possui 70 funcionários, a ideia também surgiu a partir de uma das cofundadoras da empresa. Na prática, todos os funcionários da startup, independentemente do cargo, podem tirar quantos dias de férias por ano quiserem.

“Há a concessão das férias, de acordo com a CLT, mas os colaboradores ainda podem se ausentar um período a mais também de forma remunerada. A diferença é que nesses casos não há o pagamento do adicional de férias”, diz Victor Marcondes, cofundador e diretor de RH da healthtech.

A única exigência é que, antes de optar pela licença remunerada, o funcionário avise com antecedência o gestor e, no caso de períodos mais longos, alinhe com o time para a criação de escalas.

"Também tem uma cartilha do que fazer, por exemplo: em áreas como o suporte, em que a operação não pode parar, é necessário garantir que não haverá folgas sobrepostas”, afirma Victor.

Segundo o executivo, ao permitir que o funcionário decida quanto tempo quer se ausentar, a iniciativa passa a mensagem de “autonomia e responsabilidade” e diminui o microgerenciamento.

“Existem vários líderes que usaram o benefício para estender a licença maternidade, ou licença paternidade. Também teve quem usou o benefício para fazer um curso fora do país, para ficar mais próximo da família ou tirar um tempo para cuidar da saúde mental”, afirma Victor.

Vantagens das férias ilimitadas

Nos casos de empresas como a Nilo e Justos, em que a política existe desde o seu nascimento, não há como realizar um “antes e depois”. No entanto, as duas companhias mencionam que o benefício pode estar ligado aos baixos índices de turnover que ambas apresentam, além de serem um fator para a atração de talentos.

Alguns dados reforçam essa percepção das empresas. Uma pesquisa realizada em agosto de 2023 pela Bloomberg, agência de notícias e empresa de tecnologia para o mercado financeiro, mostrou que 64% dos americanos acreditam que as férias ilimitadas poderiam valorizar as ações de empresas listadas no S&P 500, principal índice do mercado de ações dos EUA.

De acordo com o levantamento, que ouviu 1 mil investidores do mercado financeiro, os defensores de acordos de trabalho mais flexíveis avaliam que a política permite que as empresas atraiam os melhores talentos e também cortem custos relacionados à compensação por férias não utilizadas.

Contudo, embora 12% dos entrevistados tenham dito que a empresa em que trabalham já adota o benefício, apenas 18% acreditam que as férias ilimitadas se tornem uma tendência no mercado.

Férias ilimitadas: pontos de atenção

Alexandre Benedetti, diretor-geral e cofundador da consultoria Talenses Group, explica que as diferenças na legislação do Brasil em relação a outros países é um dos fatores que dificultam a implantação do benefício.

“O fato de o benefício não ser previsto na legislação trabalhista é um complicador. Por exemplo, via de regra, o trabalhador pode vender uma parte dos 30 dias de férias previstos na CLT. Em um modelo flexível, como isso funcionaria?”, afirma.

Além disso, o especialista destaca a importância do benefício estar alinhado com a cultura da companhia e com o estilo de liderança que ela possui.

“Se os líderes não têm essa cultura de incentivar o descanso, isso pode ser um contra-benefício. É o que os americanos falam do walk the talk: o que você fala, você tem que cumprir. Não pode ter uma cartilha para o funcionário e uma cartilha para o gestor”, avalia.

Para Victor, co-fundador da Nilo, mesmo não sendo algo trivial, empresas mais tradicionais podem implementar o benefício. Porém, o executivo reitera que é algo que precisa estar alinhado à cultura da companhia que deve oferecer autonomia aos funcionários.

“Ainda há muitas empresas que têm uma cultura de microgerenciamento, de falta de autonomia e confiança nas pessoas. Basta ver a questão do trabalho remoto, quando muitas querem o retorno ao presencial para ver o colaborador e acreditar que ele está trabalhando. Não adianta você querer conceder férias limitadas [desse jeito]”, diz.

Alexandre, da Talenses, também destaca que as diferenças de acordo com a área e atribuição dos colaboradores devem ser observados. Alguém que trabalha no departamento financeiro e é responsável pelo fechamento do balanço de uma empresa dificilmente conseguiria se ausentar em dezembro e janeiro, por exemplo.

Por isso, o especialista entende que a implantação não é simples e, tampouco, serve para a realidade de toda empresa.

Ele cita que, para decidir se as férias ilimitadas podem ou não fazer parte do catálogo de benefícios da empresa, é preciso prestar atenção ao "total compensation" (ou compensação total), que diz respeito à soma entre salário e benefícios oferecidos para os colaboradores, variando de acordo com o cargo e experiência.

O especialista cita como exemplo uma indústria, que conta com diferentes perfis de colaboradores, indo desde cargos mais operacionais até funções mais corporativas. Nesse contexto, a empresa precisa entender o perfil dos seus colaboradores — e qual é o perfil de profissional que ela quer atrair.

“As empresas precisam criar uma estratégia de remuneração e os benefícios são um pilar fundamental. É possível criar pacotes diferentes por categoria, por classe ou foco. No final, pode haver criatividade, mas também é necessário um match de necessidades com o seu público e com o que você busca”, finaliza.

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