Alfabetização de futuros: o que é e por que o RH precisa conhecer essa habilidade

Saiba o que é alfabetização de futuros e como essa tendência de aprendizagem será fundamental no desenvolvimento das pessoas nas empresas.

Flash

Trabalho híbrido, remoto, liderança humanizada, upskilling, reskilling, IA e por aí vai. Acelerado pela pandemia, o futuro do trabalho bate à porta. E uma coisa é certa: para quem quiser se inserir ou prosperar nesta nova realidade, compreendendo o novo momento, uma a alfabetização de futuros será fundamental, avalia Sabina Deweik, futurista, caçadora de tendências e professora na Fundação Dom Cabral.

Corroboram a visão da especialista o fato de que 65% das crianças que hoje estão na escola irão trabalhar em empregos que ainda não existem, de acordo com estudos The Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, que ainda prevê que até 2025 cerca de 85 milhões de empregos podem deixar de existir.

Em contrapartida, 97 milhões devem surgir, e 50% dos trabalhadores vão precisar se requalificar profissionalmente, aprofundando-se em novas tecnologias.

Mas só as habilidades técnicas, ou hard skills, não serão suficientes. Nem mesmo as comportamentais, ou soft skills, vão garantir sozinhas bons postos no futuro do trabalho.

Os novos tempos serão das real skills, que combinam ambas e têm relação direta com a capacidade de mudar de rumo rapidamente se necessário, ter pensamento estratégico, empatia e autoconfiança (saiba mais abaixo).

Assim, segundo Sabina, o upskilling e o reskilling passam a estar também no centro das atenções. "De um lado eu vou ter de aprofundar aquilo que eu já sei, de outro eu vou ter que expandir coisas que eu ainda não sei. Todo mundo vai precisar se qualificar no futuro."

Os novos tempos exigirão também, para a futurista, habilidade de ler cenários. "Todo mundo vai ter que ser um pouco futurista, ver quais são os sinais que estão mostrando para onde ir.”

Esta alfabetização para o futuro é, inclusive, um programa da Unesco: o Futures Literacy, que eles definem como a habilidade que permite que as pessoas entendam melhor o papel do futuro naquilo que veem e fazem. Desde 2012, a entidade realiza Laboratórios de Alfabetização do Futuro ao redor do mundo com pessoas de todas as idades para cocriar, por exemplo, o significado de sustentabilidade, paz e inclusão onde as pessoas vivem, trabalham e se divertem.

De acordo com o site do programa, quando as pessoas são capazes de decidir por que e como usar o futuro, elas se tornam mais capazes de detectar e criar o que de outra forma seria invisível – inovação e transformação. Elas ficam mais à vontade com a novidade e a experimentação, menos ansiosas com as incertezas e mais confiantes em compreender e apreciar o potencial aberto pela mudança.

"As pessoas vão precisar de modelos de aprendizagem ativa, aprender sobre resolução de problemas complexos, pensamento crítico e analítico, criatividade, liderança e influência social, monitoramento e controle de tecnologia. Elas vão precisar aprender sobre programação, design de tecnologia, dados, flexibilidade, ideação e adaptabilidade, já que o mundo está mudando tanto", enumera Sabina, que a pedido do blog da Flash, enumerou algumas prioridades para este letramento sobre o futuro do trabalho.

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A futurista Sabina Deweik revela a importância da alfabetização de futuros dentro das organizações

1. Soft, hard e real skills

Os novos tempos vão exigir um novo olhar sobre os currículos, e a busca por profissionais que tenham mais do que apenas hard skills (habilidades técnicas) ou soft skills (habilidades comportamentais). As chamadas real skills — ou habilidades reais — estão ganhando cada vez mais atenção e estarão em alta.

"Seth Godin [autor de livros sobre negócios]diz que a gente precisa desenvolver essas habilidades, que são uma combinação das soft com a as hard skills. Porque quando a gente fala de soft e hard, a gente ainda está no paradigma da máquina, que é software e hardware, só que a gente está lidando com pessoas, então a gente precisa olhar de uma outra forma", explica Sabina.

Entre os três grupos, o relatório do Fórum Econômico Mundial lista as 10 principais habilidades dos profissionais para o mercado do trabalho em dois anos. Traduzindo, é para talentos com essas características que os departamentos de gestão de pessoas estão olhando:

  1. Pensamento analítico e inovação;
  2. Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizado;
  3. Resolução de problemas complexos;
  4. Análise e pensamento crítico;
  5. Criatividade, originalidade e iniciativa;
  6. Liderança e influência social;
  7. Uso, monitoramento e controle da tecnologia;
  8. Programação e design de tecnologia;
  9. Resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade;
  10. Raciocínio, resolução de problemas e ideação.

“É possível aprender. A gente não nasce com criatividade, algumas pessoas naturalmente são mais criativas, por exemplo, mas é possível desenvolver essa habilidade, assim como a colaboração e a inteligência emocional. Eu posso oferecer sessões de coaching para o meu time, mentorias, posso fazer team building para as pessoas se integrarem", completa Sabina.

2. Burnout e saúde mental

Para a especialista, toda empresa do futuro vai ser uma empresa de saúde. Para líderes e departamentos de gestão de pessoas, uma compreensão profunda do tema será então imprescindível. "Independentemente de você trabalhar no setor de saúde, esse já é um tema super importante para a gente olhar", afirma a professora.

"A saúde mental está totalmente relacionada com essas novas formas de trabalhar. O burnout foi considerado pela Organização Mundial de Saúde como uma doença proveniente do mundo do trabalho. Antes era importante, mas era um assunto de nicho, e passa a ser um problema do mundo organizacional, do mundo das empresas. Cuidar dentro e fora da comunidade vai ser prioridade dentro dos movimentos que a gente vê no mundo do trabalho."

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3. Inteligência Artificial

A inteligência artificial, é claro, será outro tema que fará parte do trabalho do futuro. Mas, para a especialista, estamos falando de mais um ingrediente tecnológico e acredita em um trabalho que vai aliar a IA ao cérebro humano. "Como eu vou fazer perguntas para a inteligência artificial generativa? Qual é o prompt que eu preciso para ter as respostas? Quanto mais tecnológico fica, mais humano fica também. Eu vou precisar intrinsecamente melhorar as minhas habilidades humanas."

4. Gestão remota

Aquém das discussões sobre a volta ou não ao presencial, a futurista coloca a gestão remota como algo sem volta. Como consequência, o trabalho à distância tem imposto desafios, como a capacidade de liderar remotamente, criar uma comunicação eficiente e repensar a necessidade do trabalho presencial. "O presencial agora ganha novas cores, novas formas, vai acontecer quando tiver motivo. Pra que ir ao escritório? É importante de repente para fazer uma reunião que requer o olho no olho ou naquele momento de eu fazer uma integração com a minha equipe. A gente passa a se perguntar quando e por que é necessário", analisa.

5. Liderança humanizada

"Se você não entende de pessoas, você não entende de negócios, simples assim." Para a professora, o trabalho do futuro estará diretamente ligado à liderança humanizada e que olha para as individualidades de cada profissional, respeitando-as. Os gestores ainda tentam se adequar, diz ela, que completa: "Os líderes estão aprendendo. Eu vejo que é uma demanda crescente de entender o que é essa nova gestão, que passa essencialmente pela liderança humana.

6. Diversidade e Inclusão

E a liderança humanizada inclui também olhar para a diversidade do time e deixar que cada um possa existir do jeito que é. "Isso é uma questão super importante, mas para que as pessoas possam existir como elas são no mundo do trabalho, a cultura da empresa precisa mudar. De repente você tem uma cota de trainees negros ou de pessoas trans, mas essas pessoas não conseguem existir no ambiente porque aquela cultura não está preparada. É papel da liderança preparar os liderados e a empresa para receber essa diversidade e lidar com ela", afirma.

Leia também: "Diversidade é jornada, não checklist", diz Maite Schneider, co-fundadora da TransEmpregos

7. ESG, green skills e regeneração

Por fim, a futurista lista uma outra sigla que estará obrigatoriamente no vocabulário do trabalhador do futuro. O ESG (Environmental, Social and Governance), conceito no qual as empresas assumem o compromisso de respeitar critérios que consideram o ambiente, o social e a governança para obter lucro. "[O futuro do trabalho] Tem que estar conectado com ESG, com as ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) estabelecidas pela ONU para acabar com a pobreza global, proteger as pessoas, o meio ambiente e o clima.

A gente está vivendo agora uma construção de novas narrativas, não só para o mundo do trabalho, mas para como a gente gera lucro para a sociedade, porque por um tempo a narrativa vigente era o lucro a qualquer custo, só que o custo está sendo muito alto tanto para as pessoas, que estão sofrendo com questões mentais, e para o planeta, que obviamente está numa emergência climática."

Na esteira dessa necessidade, também irão se destacar os profissionais com as chamadas habilidades verdes, ou as green skills. Ou seja, trabalhadores qualificados para desenvolver projetos em ESG.

O estudo Edelman Trust Barometer, que revelou que 64% das pessoas confiam mais na ética das empresas do que nos governos, dá uma pista do tamanho da responsabilidade do mercado corporativo neste sentido.

"Hoje é papel das empresas aquilo que não era antes. Um dos grandes direcionamentos não é nem mais a sustentabilidade, é a regeneração, é ativamente trabalhar sobre aquilo que já foi danificado. Toda empresa vai precisar pensar também na regeneração social, que tem a ver com a diversidade, com equidade salarial entre mulheres e homens, com ascensão de mais mulheres e pessoas negras à liderança. Não é que as empresas não vão ter lucro, mas precisarão ter lucro de outra forma, o "como" muda."

Para entender mais sobre o futuro do trabalho:

+ Confira 15 cursos de RH para se preparar para o futuro do trabalho
+ Muito além do Chat GPT: como utilizar a inteligência artificial nas rotinas de RH
+ O que são green skills e por que elas representam o futuro do trabalho

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