Quiet cracking: conheça a nova crise silenciosa no trabalho que as empresas não podem ignorar
Mesmo desmotivados, colaboradores permanecem por salário ou falta de opções, afetando engajamento, cultura e inovação.

Nos últimos anos, o vocabulário corporativo tem ganhado expressões que traduzem o impacto do trabalho na saúde mental dos colaboradores. Depois do quiet quitting e do burnout, surge um novo termo neste contexto: quiet cracking, ou “rachamento silencioso”.
O conceito dá nome a um fenômeno que já se manifestava nos escritórios e que agora exige cada vez mais atenção das empresas, já que impacta diretamente a cultura organizacional e a atração de talentos.
Para Andrea Deis, psicóloga, neurocientista e professora em instituições como FGV e Dom Cabral, é possível dizer que o quiet cracking é uma fase anterior ao burnout. Segundo Andrea, são sinalizações que muitas vezes nem o próprio profissional percebe.
“Se a gente observar bem, quiet quitting, quiet cracking, burnout e tantos outros fenômenos sobre o mundo do trabalho nada mais são do que uma só realidade: as organizações precisam cuidar da saúde mental das pessoas ou continuarão adoecendo talentos e desperdiçando potencial”, alerta Emanuella Velez, psicóloga e especialista em gestão de pessoas.
Hoje, o desengajamento é uma realidade nas companhias. A 2º edição do Engaja S/A, levantamento pioneiro da Flash, em parceria com FGV-EAESP e o Grupo Talenses que mapeia o engajamento de trabalhadores no Brasil, reforça o alerta: 56% dos trabalhadores estão desengajados ou ativamente desengajados. A pesquisa descobriu ainda que quase 7 em cada 10 brasileiros (66%) pensaram em pedir demissão com alguma regularidade nos últimos 3 meses.
O que é quiet cracking?
Diferentemente do quiet quitting, em que o colaborador reduz o esforço como mecanismo de autoproteção, o quiet cracking aponta para um processo mais grave.
“É uma condição psíquica, um processo gradual de exaustão que muitas vezes é imperceptível. É como se fosse uma fissura silenciosa, uma quebra interna que se manifesta mentalmente nesse limite de ‘eu preciso suportar’”, explica Andrea Deis, psicóloga, neurocientista e professora em instituições como FGV e Dom Cabral.
Nesse estado, o colaborador não pede demissão nem se afasta oficialmente, mas vai perdendo o entusiasmo e segue operando no automático. Não há confrontos diretos ou rupturas dramáticas. As entregas seguem sendo feitas, os prazos são cumpridos, mas por baixo da superfície de normalidade cresce uma sensação de isolamento, desvalorização e falta de projeção de futuro.
Esse desgaste mina o engajamento e enfraquece a cultura corporativa, comprometendo inovação e resultados. “Ele testa sua capacidade sob pressão, gerando desgaste mental e físico mesmo sem perceber”, explica Andrea.
O quiet cracking não afeta apenas o indivíduo, ele gera efeitos sistêmicos: clima tóxico, erros, absenteísmo e alta rotatividade comprometem a produtividade e a performance.
Sinais associados ao quiet cracking
Esse fenômeno raramente nasce de um único evento. Segundo as especialistas, ele é alimentado por ambientes sem escuta, líderes despreparados, excesso de cobrança, longas jornadas e ausência de reconhecimento. “É uma soma silenciosa de pequenas violências cotidianas no trabalho”, resume Emanuella.
Os sinais de alerta são discretos: profissionais que deixam de sugerir soluções, evitam conversas, passam a adotar um tom mais frio. “Não é um afastamento evidente. É um silêncio que vai crescendo. As entregas continuam, mas o brilho da colaboração desaparece”, pontua Andrea.
Comentários mais ácidos, irritabilidade, indiferença, distanciamento social e desligamento emocional, mesmo em presença física, também funcionam como alertas. “Muitas vezes esses comportamentos são confundidos com preguiça ou desmotivação, mas indicam um processo degenerativo lento”, acrescenta a neurocientista.
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Como prevenir o quiet cracking
As especialistas ouvidas pelo blog da Flash reforçam que enfrentar o problema exige muito mais do que ações pontuais. Entre as medidas necessárias estão:
- Políticas consistentes de bem-estar;
- Líderes treinados para escuta ativa;
- Apoio psicológico acessível;
- Carga de trabalho equilibrada;
- Clareza de propósito nas entregas.
“Cuidar da saúde mental não é colocar mesa de pingue-pongue ou aplicativo de meditação. Se as empresas não olharem para isso com seriedade, vão pagar a conta, e ela geralmente é alta”, adverte Emanuella. “Investir em saúde mental custa menos do que arcar com as consequências do adoecimento silencioso”.
Para Andrea, é essencial uma mudança cultural: “Não basta o indivíduo cuidar de si. É preciso criar um ambiente que respeite as dimensões individual, social e organizacional. Sem isso, o quiet cracking será cada vez mais comum, afastando talentos e gerando retrabalho.”
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Jornalista de formação, acredito que as palavras têm o poder de gerar experiências capazes de promover uma transformação positiva no mundo. Veterana do marketing de conteúdo, tenho também habilidades de UX writer e analista de SEO.