No SXSW 2026, cientista Rana el Kaliouby defende que o futuro da tecnologia deve ser centrado no humano
Pioneira na pesquisa das emoções aplicadas à IA, a também investidora defendeu que a colaboração entre humanos e máquinas é a habilidade essencial da década.
Foto: Jason Bollenbacher/Reprodução SXSW Instagram
Se os algoritmos estão se tornando cada vez mais hábeis em simular a empatia e a linguagem das pessoas, o que sobrará de genuíno e distintivo para os humanos? Essa reflexão quase filosófica serviu de fio condutor do painel com a cientista e investidora Rana el Kaliouby.
Co-fundadora da startup IA Affectiva, El Kaliouby passou mais de duas décadas investigando a computação afetiva, ou seja, a capacidade de a Inteligência Artificial reconhecer, processar e simular emoções humanas.
Em um bate-papo mediado por Bob Sapien, ex-editor da Fast Company, a cientista defendeu que o avanço da IA nos negócios e na vida cotidiana deve ser pautado pelos humanos no centro da tecnologia.
“Precisamos construir um futuro da IA centrado no ser humano. Eu acredito que a IA não deve substituir nossas habilidades. Ela deve, na verdade, amplificar e aprimorar o que podemos fazer. E, idealmente, podemos aproveitar a IA e usá-la para resolver problemas realmente significativos”, disse El Kaliouby.
Nesse cenário, as competências mais valiosas para os talentos humanos serão a colaboração, o pensamento crítico e a intuição. A premissa central é clara: deixe a máquina ser mais inteligente, mas garanta que o ser humano permaneça mais sábio.
O risco do "Clube do Bolinha" e a governança
Apesar do otimismo com as oportunidades econômicas geradas pelas novas ferramentas, a investidora fez um alerta contundente sobre as falhas estruturais do mercado de tecnologia. Ao criticar a falta de diversidade, El Kaliouby classificou a indústria de IA de hoje como um verdadeiro "clube do bolinha".
"Se as mulheres forem deixadas de fora porque não estão fundando essas empresas, porque não estão recebendo financiamento, porque não estão sequer investindo nos fundos que investem nessas empresas, nós vamos olhar para trás daqui a cinco ou dez anos, e a lacuna econômica terá aumentado loucamente", advertiu.
Para evitar que a rápida adoção tecnológica desumanize os ambientes corporativos, na visão da cientista, o caminho proposto exige intencionalidade no uso da tecnologia.
"Todos nós nesta sala temos uma responsabilidade sobre quais ferramentas de IA estamos usando todos os dias. Sobre quem estamos pagando. E acho que devemos fazer perguntas do tipo: essa empresa se importa com a ética da tecnologia? Como ela está sendo construída? Eles estão pensando em viés, tanto de dados quanto algorítmico? Eles estão pensando em confiança, segurança e privacidade?”, disse.
A integração entre equipes e agentes autônomos demandará adaptação contínua dos profissionais, mas, principalmente, a implementação de limites rigorosos de segurança (guardrails) e maior transparência nos modelos desenvolvidos.
A lição deixada pela palestra é que a revolução dos algoritmos não é um convite para a obsolescência humana, mas a nossa maior chance de focar na essência colaborativa e intuitiva que nenhuma máquina consegue codificar.
Usando a própria dinâmica familiar como exemplo — com um filho que testa os limites das ferramentas e uma filha que prefere interações reais e analógicas —, Bob Sapien ilustrou o momento atual. "Nossa mesa de jantar é realmente um microcosmo das discussões que estamos tendo na sociedade", provocou o jornalista.
Ao que El Kaliouby respondeu: "Ambas as realidades [interações reais ou analógicas] são verdadeiras. Precisamos mergulhar e abraçar a IA e, ao mesmo tempo, nutrir nossas conexões humanas". Diante dessa dualidade, o profissional do futuro precisará de adaptabilidade: "A colaboração, seja com humanos ou com máquinas, será uma habilidade fundamental", concluiu a cientista.
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Jornalista especializada em negócios, gestão de pessoas, empreendedorismo, carreira, comportamento e tecnologia. Com passagens por diversos veículos de imprensa e pós-graduação em marketing pela FGV, atuo com comunicação, curadoria e projetos editoriais de marca. Na Flash é gerente de comunicação e conteúdo.
