Amy Webb no SXSW 2026: a morte do “relatório de tendências” e as três convergências que vão redefinir o futuro dos negócios
Futurista alertou para um futuro próximo marcado por super-humanos, trabalhadores totalmente autônomos, incerteza econômica e solidão
Foto: Juliana Cordaro/ Flash
Austin, Texas — Como já é tradição no SXSW, a esperada palestra da futurista Amy Webb abriu a programação de sábado do festival de inovação. Mas o que as centenas de pessoas que esperavam do lado de fora do Hilton Grand Ballroom em filas quilométricas não esperavam era serem surpreendidas com uma palestra que começou literalmente em tom de velório.
Vestida com uma capa preta, Webb subiu ao palco do auditório enquanto uma música solene tomava conta do salão decorado com velas e flores e anunciou o “funeral” do Emerging Tech Trend Report, seu icônico relatório de tendências que ditou os rumos da inovação nos últimos 19 anos, 15 deles apresentados no SXSW.
Para a plateia de cerca de 1.500 pessoas, a CEO do Future Today Strategy foi categórica: o mundo está mudando rápido demais e um PDF estático sobre tendências virou uma muleta para as empresas, não um catalisador de estratégias. “Às vezes, você tem que queimar o que construiu e abrir caminho para o que o futuro exige, e é exatamente por isso que estamos aqui hoje”, disse.
O que são convergências, segundo Amy Webb
Citando a teoria da “destruição criativa”, do economista austríaco Joseph Schumpeter, ela alertou para o fato de que a única certeza do mundo atual é a mudança constante que causa a destruição do status quo. Usando uma analogia com o poder destrutivo de tempestades, Webb defendeu que tendências são como dados meteorológicos isolados (temperatura, umidade, vento), mas não detectam as "tempestades perpétuas" que vivemos no mundo capitalista.
Já as convergências são o sistema de tempestade em si, o momento em que várias tecnologias e forças interagem para criar uma nova realidade. De acordo com Webb, as convergências são definidas por quatro pilares: impacto em múltiplos sistemas e setores simultaneamente, capacidade de instaurar novas realidades imediatamente, redesenho das regras do jogo e redistribuição de poder e valor e, por último, dificuldade extrema de serem revertidas.
“Uma convergência diz o que vai se tornar inevitável antes que pareça inevitável. O que significa que a janela para agir é mais cedo, mas o custo de perdê-la é muito, muito maior”, alertou.
Para detectar essas convergências, o Future Today Strategy Group desenvolveu uma nova metodologia que Webb apelidou de “rastreador de tempestades”. As descobertas feitas por meio desse novo sistema deram origem ao substituto oficial do Emerging Tech Trend Report: o Convergence Outlook, panorama anual de convergências que inclui, ao todo, dez mudanças que a futurista e seu time acreditam que terão maior impacto nos negócios e na sociedade em 2026.
Em primeira mão para a plateia do SXSW, Webb dissecou três dessas dez convergências ou “tempestades” que já estão se formando.
Tempestade 1: super-humanos (human augmentation)
A primeira convergência trata do uso de tecnologia e biologia para estender as capacidades físicas e cognitivas humanas além de seus limites naturais. Webb mostrou exemplos reais: calças motorizadas da Arc'teryx que funcionam como uma "e-bike para caminhadas" , exoesqueletos de lazer , camas com IA que otimizam as fases do sono e óculos inteligentes que sobrepõem inteligência artificial e tradução em tempo real ao campo de visão.
O alerta foi duro: quem aderir a esses aprimoramentos pode se tornar cerca de duas vezes mais eficaz do que a pessoa comum. “Pela primeira vez na história, alguns humanos serão objetivamente melhores do que outros, e esse pode não ser você”, disse Webb.
Tempestade 2: trabalho ilimitado (unlimited labor)
A segunda tempestade subverte a lógica da economia global desde a Revolução Industrial: estamos prestes a ter produção em escala sem precisar de pessoas. Webb definiu o “trabalho ilimitado” como a automação massiva de esforços.
Entre os exemplos citados pela futurista estão uma IA autônoma capaz de programar e reescrever códigos milhares de vezes (AlphaEvolve) e avatares hiper-realistas na China faturando 7,6 milhões de dólares com transmissões ao vivo de seis horas ininterruptas. Há ainda fábricas operando totalmente no escuro ("lights out industrialism"), geridas por IA e tocadas por robôs 24 horas por dia.
“Pela primeira vez na história humana, você pode ter escala sem população, produção sem salários, produção sem pessoas. Muitas pessoas vão cair na incerteza econômica”, vaticinou Webb.
Tempestade 3: a terceirização emocional (emotional outsourcing)
Talvez a constatação mais sombria do painel de Webb seja a mudança na forma como buscamos conforto. No que ela chama de “terceirização emocional”, Webb alertou para o fato de que estamos transferindo o papel da companhia, da validação e do afeto de humanos para as máquinas.
Como exemplo, ela citou o fato de que plataformas de IA conversacional (como ChatGPT, Claude e Gemini) se tornaram suporte emocional para milhares de pessoas e entre 25% a 50% dos americanos já utilizam essas ferramentas como terapia, transformando-as na maior fonte de apoio à saúde mental nos EUA.
Com IAs programadas para elogiar e validar os usuários, Webb alertou para o risco de dependência emocional e uma possibilidade crescente dos seres humanos perderem a capacidade de processar emoções difíceis sozinhas — ou com outras pessoas de carne e osso.
Dois cenários possíveis
Antes de encerrar, Webb apresentou um cenário digno de filme de terror. Segundo ela, em cerca de cinco anos, pode ser possível que humanos precisem alugar tecnologias de aprimoramento (como óculos e camas de IA) para continuar competitivos no trabalho, enquanto pagam assinaturas mensais para ter acesso a conselheiros emocionais de IA. Tudo isso controlado pelas mesmas empresas que automatizaram os empregos.
O segundo cenário, mais otimista, envolve o que ela chama de "Crédito de Contribuição". É um sistema onde as empresas que lucram com a automação pagam uma pequena porcentagem de seus ganhos de volta para as pessoas que forneceram o trabalho e os dados invisíveis (arte, escrita, cuidado, mentoria) que treinaram essa economia e sustentam a sociedade.
Num dos momentos mais frontais da apresentação, Webb não escondeu a sua própria frustração com o estado atual da liderança global. “Eu sei que as coisas parecem difíceis agora. Sei que estão preocupados. Sei que alguns de vocês estão com raiva. Eu estou com raiva”, confessou ao público.
Mas a futurista finalizou dizendo que a raiva não é um plano de ação e encorajou o público a usar o seu relatório de tendências para moldar o futuro e assumir as rédeas das suas próprias carreiras e empresas.
“Tempestades estão chegando. Você não pode simplesmente ficar do lado de fora vendo o céu ficar verde, a chuva chegando, entrar e dizer "eles estão exagerando, não vai ser tão ruim". Ninguém está vindo te salvar, certo. Se você quer agência, você tem que tomar medidas”, concluiu.
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Jornalista especializada em negócios, gestão de pessoas, empreendedorismo, carreira, comportamento e tecnologia. Com passagens por diversos veículos de imprensa e pós-graduação em marketing pela FGV, atuo com comunicação, curadoria e projetos editoriais de marca. Na Flash é gerente de comunicação e conteúdo.
