Para combater esgotamento, deveríamos valorizar menos a alta performance, diz psiquiatra

Em seu livro “Viver É Melhor sem Ter que Ser o Melhor”, escritor desafia a busca constante pela excelência e mostra os benefícios de ser mediano.

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Em sua busca obsessiva pela superação e excelência, a sociedade desaprendeu o real valor do meio termo. Ironicamente, porém, a maioria das pessoas não está nem no topo nem na base — mas na média. Pelo menos é isso que defende o psiquiatra Daniel Martins de Barros em seu novo livro, “Viver É Melhor sem Ter que Ser o Melhor” (ed. Sextante), lançado em novembro de 2023.

Para o escritor, a supervalorização da perfeição e da alta performance está relacionada ao excesso de estresse e ao desenvolvimento de burnout, entre outros males da vida contemporânea. A solução, então, seria abraçar o que Daniel defende como “suficientemente bom”. O conceito bebe da fonte do Arcadismo, movimento literário europeu do século XVIII que pregava a busca pelo equilíbrio e o meio termo na vida.

“O livro acaba sendo relevante não por mérito dele, mas por mérito do Arcadismo, que são princípios perenes. Se falo com professores, me dizem que estão precisando do livro na escola. Os pais, na educação dos filhos. Na universidade, ouvi que é muito necessário na pós-graduação. A mesma coisa quando converso com as empresas”, diz Daniel.

Médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Daniel possui mais de dez livros publicados, como “O Lado Bom do Lado Ruim” (ed. Sextante) e “Viagem por Dentro do Cérebro” (Panda Books), este último indicado ao prêmio Jabuti de 2014.

O psiquiatra, que também é colunista do jornal O Estado de São Paulo e Rádio Band News, conversou com exclusividade com o blog da Flash. Confira a entrevista a seguir:

De onde surgiu a ideia para escrever este livro?

A ideia do livro surgiu de um convite que recebi para falar de alta performance. Na hora pensei: não dá para falar sobre média performance? Vamos ser felizes na média! Percebi que essa coisa de alta performance tinha virado uma cadeia para as pessoas, sendo que na maior parte do tempo estamos na média.

E como você chegou até o Arcadismo?

Pensando sobre esse assunto, lembrei-me de um lema que tinha visto no ensino médio, aurea mediocritas (ou mediocridade de ouro, em tradução livre do latim), quando aprendi sobre Arcadismo, uma escola literária que já exaltava o valor do meio termo. Uma das suas características era exaltar o filósofo grego Aristóteles, para quem a virtude estava no meio.

Comecei a pesquisar, lembrei de todos os outros lemas do arcadismo e vi como eles dialogavam com os nossos tempos. A partir daí, elaborei as ideias em cima deles e vi que continuavam sendo muito relevantes e serão relevantes sempre, porque tocam na essência do ser humano.

Que outros paralelos com os nossos dias você encontrou nos princípios do Arcadismo?

O primeiro lema, inutilia truncat (do latim “tirar o inútil”), é mais importante do que nunca. Alguém pode dizer que não acumula coisas inúteis, mas basta olhar o seu celular para encontrar um tanto de informação sem utilidade ali. Isso são mensagens sem importância que sobrecarregam o nosso cérebro.

Outro lema do Arcadismo é o fugere urben (“fugir da cidade”, em tradução livre), que resgata a ideia de uma vida mais conectada com a natureza. Pensar sobre nosso estilo de vida também é cada vez mais importante. Além do próprio aurea mediocritas, que é resgatar o valor do meio termo.

Por fim, é claro, o famoso carpe diem (“colha o presente”). Diferente do que se pode acreditar, ele não se trata de viver como se não houvesse amanhã ou fazer o máximo agora. Na verdade, esse princípio tem muito a ver com desacelerar, focar no que está acontecendo agora e aproveitar o momento.

No livro, você defende que precisamos resgatar o valor de sermos medianos. Por quê?

A tese que eu defendo no livro é a de que esquecemos o valor do meio termo por dar uma importância excessiva ao melhor, ao vencedor, à conquista, à promoção. A ideia não é desvalorizar o mérito ou o pódio, mas lembrar que, na maior parte do tempo, a maioria das pessoas está na média.

Portanto, a questão não é qual o lado bom de estar na média. O fato é que estamos na média. E isso pode ser bom simplesmente porque outras coisas têm valor quando nós estamos nesta posição — como a amizade, o companheirismo, o descanso, a saúde mental, a cooperação. O que eu defendo é que não precisamos sofrer por estamos na média. Isso não é um problema.

Qual a diferença entre ser mediano e medíocre então?

Estar na média é resgatar a ideia do bom suficiente. Não é preciso ser o melhor sempre, mas isso não quer dizer que temos de ser os piores ou que qualquer porcaria serve. É preciso ser bom, mas esse bom suficiente já deve nos satisfazer. A questão é sair da armadilha de sempre tentar ser o melhor ou imaginar que as coisas podem sempre ser melhores, porque com isso não desfrutamos o que já temos.

Mas este ser "suficientemente bom" não pode trazer prejuízos?

Uma vez me perguntaram se isso não poderia custar uma promoção. Eu respondi que, sim, pode. Mas se a pessoa entendeu que não é só a promoção que tem valor, ela não está perdendo nada, só está pagando o preço de uma outra coisa.

Abrir mão de uma promoção pode ser o preço que se paga para não adoecer mentalmente, por exemplo. Isso porque o raciocínio inverso é: para conseguir aquela promoção, em determinados casos, o preço a se pagar é ficar doente. É tudo uma questão de valores, de se perguntar o que é mais importante, mais valioso para você.

Pensando na saúde mental e física, ser mediano é algo positivo então?

Temos a tendência de estarmos sempre insatisfeitos, e isso faz parte da nossa evolução. No passado, não havia recursos para todos, então, era preciso brigar por comida e por abrigo com intensidade, caso contrário você não sobreviveria.

Como descendentes de pessoas que sempre queriam mais, nós herdamos esse comportamento. Mesmo que hoje tenhamos disponibilidade de recursos, esse mesmo raciocínio serve para o que queremos alcançar. Se consegui uma promoção, quero outra. Se conquistei um bem vou querer adquirir outro. Parece que nunca é satisfatório. Isso gera um desgaste emocional associado com o surgimento de doenças mentais como depressão, por exemplo.

A obsessão pela alta performance é também um problema para as empresas?

Para a empresa isso é péssimo. Porém, acontece que muitas delas querem duas coisas: que o funcionário esteja bem mas atue no seu limite. Só que isso é impossível — e tem ficado cada vez mais claro. Não dá para querer que alguém faça sempre além do que pode, tenha uma performance sobre-humana e, ao mesmo tempo, continue bem fisicamente e mentalmente.

Algumas empresas já descobriram isso, já perceberam que essa conta não fecha e que é caro demais deixar o funcionário adoecer. Com isso, muitas companhias entenderam que, para ter uma performance melhor, é necessário diminuir a cobrança e, assim, fazer com que as pessoas continuem saudáveis e produtivas. É aquela história: a gente tem de ir devagar porque tem pressa.

Nesse sentido, qual a relação da busca desenfreada pela perfeição e doenças como o burnout?

Quando a gente pensa em burnout, pensa na empresa e no capitalismo exigindo demais. A insatisfação contínua, a pressão por metas, resultados e por alcançar sempre a alta performance, além do desempenho máximo. Tudo isso são fatores de risco.

Mas existe também um aspecto pessoal. O comportamento da pessoa tem relação com sua chance de desenvolver burnout. A busca pessoal pela alta performance, que é uma questão de personalidade, de perfil, também é fator de risco.

Quem é extremamente engajado e busca o máximo de seu desempenho, independentemente das questões relativas à empresa, tem muito mais chance de sofrer um burnout em comparação com quem está fazendo a sua parte, um dia de cada vez, pois sabe que não vai dar conta de todo o trabalho de uma vez.

Qual o papel do RH neste cenário?

O RH não consegue fazer uma empresa querer ter menos lucro nem um mercado ficar menos competitivo, mas pode atuar com as pessoas. Ele pode lembrá-las de que existem outras coisas do trabalho, além da máxima performance, que são importantes.

Essa é uma cultura que profissionais de recursos humanos podem ajudar a disseminar e, felizmente, é um movimento que vem ganhando tração, encabeçado pelas gerações mais jovens. Mas, isso não é só uma questão geracional, a sociedade como um todo está migrando em direção a esse entendimento.

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