Opinião | Vagas afirmativas para mães solo na Flash e o que o mercado ainda não entendeu sobre maternidade

Em sua coluna mensal, Isadora Gabriel reflete sobre maternidade, flexibilidade e por que disponibilidade irrestrita ainda é confundida com performance.

Flash

Hoje quero falar de um assunto que afeta muitas profissionais mulheres. Porque mesmo com alguns avanços em equidade de gênero, as conversas sobre maternidade ainda acontecem de forma bem superficial no mercado de trabalho.

Isso chama ainda mais atenção quando olhamos para os dados do IBGE: 7,8 milhões de mães vivem sozinhas com seus filhos, sem a presença de um cônjuge ou parceiro. Ou seja, não estamos falando de uma exceção ou de um recorte pequeno da população economicamente ativa do país. 

Ainda assim, a maternidade, especialmente a solo, continua sendo percebida em muitos ambientes corporativos mais pela lógica da limitação do que pela perspectiva do potencial profissional.
E o principal tabu não está relacionado à capacidade de entrega dessas mulheres, mas à ideia de disponibilidade. Ainda existe um imaginário que associa comprometimento à presença constante, à flexibilidade irrestrita de agenda e à possibilidade de priorizar o trabalho acima de qualquer outra dimensão da vida.

Na prática, isso significa que muitas mulheres enfrentam desafios enormes para crescer profissionalmente, não por falta de competência, mas porque, sem relações de trabalho mais flexíveis e uma rede de apoio minimamente sustentável, a conta não fecha para as mães solo.

Foi justamente essa reflexão que nos levou a abrir, pela primeira vez na Flash, um processo seletivo afirmativo voltado exclusivamente para mães solo. As vagas são 100% remotas e o foco inicial é na área de pré-vendas. 
Mais do que uma ação pontual, a iniciativa surgiu como uma tentativa concreta de ampliar acesso e revisar estruturas que, muitas vezes, excluem essas mulheres antes mesmo de o processo seletivo começar.

Em poucas semanas, recebemos cerca de 2 mil inscrições e já iniciamos processos com dezenas delas. A expectativa é fechar aproximadamente 15 contratações. Esse volume de inscrições só reforçou a relevância dessa discussão.

O mais interessante neste debate é, que apesar dos estigmas, os dados mostram uma realidade diferente. Na terceira edição do Engaja S/A, estudo conduzido pela Flash em parceria com a FGV EAESP, por exemplo, descobrimos que profissionais com filhos apresentam maior nível de engajamento (45%) do que aqueles sem filhos (30%).

Maternidade traz outras habilidades

Longe de querer romantizar a maternidade, sei que, em muitas situações e para muitas mulheres, ser mãe envolve sobrecarga, exaustão e um exercício permanente de reorganização da rotina, posso dizer que ela também traz algumas habilidades, que o mercado ainda subestima, como adaptabilidade e gestão do tempo.
A verdade é que a maternidade pode mudar profundamente a forma como enxergamos o trabalho, o tempo e a liderança. 

Talvez por isso eu acredite tanto que a inclusão não acontece apenas na contratação, mas na capacidade de construir ambientes profissionais onde as pessoas consigam desenvolver suas carreiras sem precisar deixar partes importantes de suas vidas do lado de fora.

Mas como uma empresa pode dar o primeiro passo nesse sentido? 

Na minha visão, o caminho começa com empatia e flexibilidade, o ponto de partida para um alinhamento de interesses. A empresa quer resultado, a profissional quer construir carreira, e essas duas coisas não são incompatíveis. 

O que as torna incompatíveis, muitas vezes, são expectativas pouco realistas sobre disponibilidade e uma cultura que ainda confunde presença com comprometimento. Penso que performance é inegociável e é exatamente por isso que as condições para que ela aconteça também precisam ser.

O que eu percebo que faz diferença é quando as pessoas conseguem dizer "essa semana minha rede de apoio falhou" sem que isso abale o que já construíram com seu gestor e sua empresa. Quando existe segurança psicológica real para isso, o resultado aparece.

Na Flash, essa reflexão também nos levou a fortalecer estruturas de apoio já existentes, como o programa Mamãe Flamingo e o acesso à plataforma de saúde emocional para mães da empresa. Porque, no fim, inclusão não acontece só no discurso, mas quando empresas criam condições reais para que diferentes contextos de vida coexistam com ambição, desenvolvimento e resultado.

Vamos juntas nessa jornada!

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