Os dois lados da escala 6x1: pesquisadoras apresentam suas visões sobre o impacto da mudança para o país
Debate sobre o fim da escala 6x1 avança no Brasil e expõe queda no engajamento, desgaste do trabalhador e desafios para empresas e RHs.
Em meio a recordes de afastamentos por problemas de saúde mental e queda no engajamento no trabalho, o debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força no Brasil nos últimos meses, impulsionado pelo cenário político, pesquisas de opinião e posições contrárias à mudança.
Para ajudar a entender a complexidade desse debate e seus impactos para as empresas, o blog da Flash ouviu duas especialistas acadêmicas, que possuem visões diferentes sobre o tema.
De um lado, a professora Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), defende que o fim da escala 6x1 é uma oportunidade histórica para combater o esgotamento físico e mental, forçando as empresas a buscarem modelos mais eficientes e inclusivos.
“Não dá para imaginar que, com o fim da escala 6x1, nós vamos resolver os problemas de saúde física e mental. Estamos começando a enfrentá-los, mas precisamos discutir as condições de trabalho”, afirma Marilane.
Na outra ponta do debate, a economista Juliana Inhasz, professora do Insper e coordenadora do programa Insper One, alerta que, sem um ganho real de produtividade, a mudança traz riscos imediatos de inflação, perda de competitividade e avanço da informalidade, caso o mercado não consiga absorver os novos custos operacionais.
“A discussão econômica não pode se tornar coadjuvante porque não afeta só o trabalhador, mas também o contexto no qual ele trabalha. Então ela vai mexer com custos no geral, com a organização da empresa e da produção e especialmente com a produtividade”, afirma Juliana.
Vale ressaltar que, embora partam de perspectivas distintas, as duas especialistas convergem ao reconhecer que jornadas intensas impactam diretamente no bem-estar das pessoas e que qualquer mudança exige uma revisão mais ampla da organização do trabalho.
Mais detalhes sobre o ponto de vista de cada uma delas, você confere a seguir:
Cenário da escala 6x1 atualmente no Brasil x engajamento
Antes de entendermos os prós e contra da mudança, vamos apresentar o cenário do trabalho no Brasil hoje. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 20 milhões de brasileiros atualmente trabalham seis dias por semana, em jornadas de 44 horas ou mais. Embora atinja 33,2% dos profissionais e não seja a escala majoritária no país, ela é predominante nos setores de comércio e serviços.
E esse contingente relata níveis mais elevados de fadiga, insônia e depressão, como mostrou o Engaja S/A 2025, 3ª edição do levantamento que a Flash realiza anualmente em parceria com a FGV EAESP, que mede o nível de engajamento do trabalhador brasileiro. O estudo mostra ainda que o país atravessa um momento crítico, com apenas 39% dos trabalhadores efetivamente engajados.

Fonte: Engaja S/A 2025
A relação entre saúde mental e engajamento profissional é um consenso acadêmico.
Nos anos 1990, o teórico William Kahn já antecipava que estados psicológicos positivos são uma condição para o engajamento, enquanto a ansiedade e a tensão minam o envolvimento entre empregados e empregadores.
E o Engaja S/A retrata a relação direta entre o adoecimento e a motivação dos profissionais. Cinco em cada dez trabalhadores ativamente desengajados (48%) enfrentam a ansiedade todos os dias, enquanto entre os engajados este número cai para 15%.

Fonte: Engaja S/A 2025
Conheça mais dados do Engaja S/A: Desengajamento dos trabalhadores custa R$ 77 bi ao ano às empresas brasileiras
Como anda a proposta do fim da escala 6x1 no Congresso?
No dia 22 de abril, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou por unanimidade a admissibilidade das Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que tratam do fim da escala 6x1, permitindo que o tema avance formalmente na Casa. Com a aprovação na CCJ, o texto segue agora para uma comissão especial, onde será discutido o mérito e possíveis ajustes antes de ir ao plenário.
A aprovação na CCJ destrava formalmente a tramitação da proposta, mas ainda não entra no mérito do que será aprovado. Depois dessa fase, ela ainda precisa passar pelo plenário da Câmara, onde enfrenta uma nova votação, antes de seguir para o Senado.
Paralelamente, o governo federal também tenta avançar com uma proposta própria. No dia 14 de abril, o governo federal encaminhou ao Congresso, com urgência constitucional, um projeto que reduz o limite da jornada semanal para 40 horas e prevê dois dias de descanso, sinalizando a tentativa de acelerar a discussão e buscar uma solução intermediária para o impasse. O texto também proíbe qualquer tipo de redução salarial. A urgência constitucional limita a até 45 dias o prazo máximo de tramitação em cada casa legislativa.
Enquanto o impasse segue no Congresso, a pressão popular se mantém: segundo pesquisa do Datafolha, 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6x1.
Duas visões sobre a escala 6x1:
1) Custos absorvidos e menos trabalho para as mulheres
Opinião da professora Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Unicamp
Desafios à parte, a professora da Unicamp considera que a redução da jornada pode funcionar como um estímulo à modernização dos processos produtivos. “Não tem nenhuma evidência de que jornadas longas aumentem a produtividade. Vejo isso como uma oportunidade para melhorar os ganhos de produtividade”, afirma.
Além disso, na avaliação da pesquisadora, o argumento de que a redução da jornada levaria necessariamente a um aumento de custos precisa ser analisado com cautela. Para ela, há uma tendência de superestimar esse impacto, mas os custos podem ser diluídos pelas empresas, já que elas acumularam ganhos relevantes de produtividade e lucratividade, em parte viabilizados justamente por jornadas mais extensas.
“Quando nós reduzimos a jornada de 48 para 44 horas semanais, nos anos 1980, não houve nenhuma evidência de que isso tenha representado elevação de custo que gerasse desemprego, informalidade ou fechamento de empresas”, acrescenta Marilane, ressaltando que o contexto da época, marcado por hiperinflação, crise da dívida externa e forte instabilidade econômica, era mais adverso do que o atual.
Outro ponto destacado pela pesquisadora é o impacto desigual da escala 6x1 entre diferentes grupos de trabalhadores, já que, segundo ela, mulheres e as pessoas em condição de maior vulnerabilidade são maioria nesses empregos com jornadas mais extensas.
Nesse sentido, ela avalia que a mudança pode ter efeitos positivos mais amplos, inclusive na formalização do trabalho. “Se há potencial de geração de emprego, podemos deslocar parte do trabalho informal para o formal. Todos ganham, especialmente as mulheres, que já acumulam uma sobrecarga maior ao somar trabalho remunerado e doméstico”, conclui.
2) Desafio econômico: produtividade x sustentabilidade
Opinião da economista Juliana Inhasz, professora do Insper e coordenadora do programa Insper One
Para a economista, o avanço de propostas para mudar a escala de trabalho ainda esbarra na dificuldade de conciliar uma demanda social legítima, ligada à saúde e à qualidade de vida, com os impactos econômicos e operacionais dessa mudança.
“A discussão econômica não pode se tornar coadjuvante, porque ela não afeta só o trabalhador, mas também o contexto no qual ele trabalha. Então, ela vai mexer com custos no geral, com a organização da empresa e da produção e, especialmente, com a produtividade”, afirma Juliana.
Na leitura de Juliana, o principal risco da redução da jornada está justamente no descompasso entre a medida e a capacidade estrutural do país de sustentá-la. “Se a redução dessa jornada de trabalho vier junto de uma eventual perda de salário real, o trabalhador pode ganhar tempo livre, mas vai perder poder de compra”, diz.
Por isso, ela defende uma transição gradual. “Se conseguirmos fazer realmente essa transição gradual, aliando com uma agenda de aumento de produtividade, investindo em tecnologia, em treinamento, em gestão e pensando em desenhos diferentes para setores diferentes e para empresas de tamanhos diferentes, essa mudança pode evitar um cenário de salários comprimidos ou aumento da informalidade.”.
Para ela, sem esse cuidado, o risco é de que o resultado seja oposto ao esperado. “Podemos ter aumento de preços, perda de competitividade e até uma maior informalidade. O resultado pode ser completamente oposto ao que a proposta pretende”, conclui.
Como o RH pode repensar a organização do trabalho
Independentemente do desfecho da discussão no Congresso, o avanço do debate sobre a escala 6x1 já sinaliza uma pressão clara sobre as empresas: repensar a forma como o trabalho é organizado.
Para o RH, isso significa sair de uma lógica puramente operacional e assumir um papel mais estratégico, especialmente em um momento em que a própria NR-1 passa a exigir das empresas uma gestão mais estruturada dos riscos psicossociais, como estresse, sobrecarga e condições de trabalho. A seguir, confira dicas de como a gestão de pessoas podem participar desse processo:
1. Revisar a organização do trabalho, não só a jornada
Um dos principais pontos levantados pelas especialistas é que a discussão não pode se limitar à redução de dias trabalhados. Na prática, isso exige olhar para:
- distribuição de tarefas
- fluxos de trabalho
- gargalos operacionais
- uso de tecnologia
E aqui entra um ponto central: a NR-1 reforça que não basta medir carga de trabalho, é preciso avaliar como o trabalho está sendo realizado e quais riscos ele impõe à saúde do trabalhador. Sem essa revisão, o risco é apenas “comprimir” o trabalho em menos tempo, aumentando o desgaste. Ou seja: o tipo de situação que a norma busca evitar.
2. Mapear áreas mais vulneráveis
Os dados do Engaja e a análise das pesquisadoras mostram que o impacto da jornada não é igual para todos. Pensando nisso, o RH precisa identificar:
- áreas mais intensivas em mão de obra
- funções com alta repetição ou baixa autonomia
- times com maior índice de sobrecarga ou turnover
3. Monitorar engajamento e saúde mental de forma contínua
No contexto atual em que o engajamento está em baixa e os afastamentos por problemas de saúde mental em alta, o acompanhamento precisa deixar de ser pontual e passar a fazer parte da rotina de gestão. Isso envolve monitorar de forma consistente não apenas os níveis de engajamento, mas também sinais de sobrecarga e indicadores relacionados à saúde mental, como estresse, fadiga e exaustão.
4. Reforçar a proposta de valor ao colaborador
A discussão sobre a escala 6x1 não é apenas operacional, mas também envolve temas como qualidade de vida, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e o próprio sentido do trabalho. Um caminho às empresas é reforçar sua proposta de valor ao colaborador, o que ajuda na atração de talentos, retenção de equipes e aumento de engajamento. Ao mesmo tempo, avançam no alinhamento com exigências regulatórias que colocam o bem-estar no centro da gestão do trabalho, e conseguem uma vantagem competitiva no mercado.
Continue a navegar no blog da Flash:
Jornalista de formação, acredito que as palavras têm o poder de gerar experiências capazes de promover uma transformação positiva no mundo. Veterana do marketing de conteúdo, tenho também habilidades de UX writer e analista de SEO.