Flash Humanidades 2026: veja insights do evento que trouxe Susan David ao Brasil
Autora do best-seller “Agilidade Emocional” faz fala inédita e participa de painel com historiadora Lilia Schwarcz e economista Eduardo Giannetti.
“Uma jornada intensa, provocadora e necessária”. Foi assim que a jornalista Cynthia Martins definiu a 5ª edição do Flash Humanidades, um dos maiores eventos de RH do Brasil, promovido anualmente pela Flash.
A psicóloga Susan David, uma das principais pensadoras de gestão de pessoas do mundo, foi a estrela da noite e subiu ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, para falar sobre um tema caro ao RH: como liderar quando é desconfortável.
Sob a arquitetura icônica de Oscar Niemeyer, o evento exclusivo reuniu mais de 500 convidados, que foram recepcionados pela apresentação musical da cantora Mônica Salmaso, que, ao lado de Nelson Ayres ao piano e Teco Cardoso nos sopros, receberam o público com as canções “Saudações”, de Paulo César Pinheiro, e “Paciência”, de Lenine.
Após a apresentação, os convidados puderam assistir à palestra ao vivo de Susan David, que subiu ao palco para discutir como as emoções desempenham um papel fundamental para o futuro do trabalho e para as transformações que a inteligência artificial traz.
E para completar a noite, o Flash Humanidades promoveu um encontro exclusivo entre Susan David, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e o economista Eduardo Giannetti, mediado pelo jornalista Ernesto Paglia, que debateram sobre como as nossas raízes influenciam a forma como os profissionais brasileiros trabalham e lideram times.

Susan David é pesquisadora de Harvard e a responsável por reinventar o olhar sob a inteligência emocional. Consultora de organizações como a ONU, Microsoft e Google, ela criou o conceito de agilidade emocional, reconhecido como um dos pilares da gestão de pessoas contemporânea.
Para a psicóloga sul-africana, as emoções não devem ser controladas e tratadas com rigidez, mas reconhecidas como informações valiosas para agir de maneira mais consciente. “Como lidamos com o nosso mundo interior afeta o mundo ao nosso redor. A maneira como vemos nossas emoções como boas e ruins é rígida, e não permite que a nossa organização cresça e floresça.”
Em sua quinta edição, o Flash Humanidades promoveu mais um encontro para líderes e gestores de RH do país. Com o objetivo de debater grandes questões do mundo corporativo, o evento já recebeu grandes nomes internacionais como Ram Charan, Dave Ulrich, Kate Darling e Esther Perel.
A seguir, você confere em primeira mão oito reflexões do Flash Humanidades, que trazem uma nova perspectiva para a gestão de pessoas sob a ótica das emoções – e como o contexto brasileiro tem seu papel na construção dos líderes.
1. A beleza da vida é inseparável de sua fragilidade
Ao iniciar sua participação no Flash Humanidades, Susan David cumprimentou os líderes e RHs com um “Olá”, em português, e na sequência, “Sawubona”, saudação tradicional Zulu da África do Sul que significa “eu vejo você”. Ela recordou que sempre se sentiu vista na presença do pai, que morreu enquanto ainda era jovem, vítima de um câncer.
No dia em que se despediu dele, pouco antes de ir para a escola, Susan precisou encarar o desconhecido e passar pela porta do quarto em que ele estava. “Eu não sabia o que estava atrás da porta, mas sabia que precisaria pular do precipício antes de estar pronta. Quando eu entrei, meu pai estava deitado lá de olhos fechados, mas, mesmo assim, ele sabia que eu estava lá. Na presença dele, eu sempre me senti vista.”
A pesquisadora emendou dizendo que a experiência dolorosa fez com que ela percebesse que não existirá um dia em que viveremos sem experienciar desafios. “A beleza da vida é inseparável de sua fragilidade. Todos somos saudáveis até não sermos mais, felizes até não sermos mais.”
2. Não estamos em uma revolução de IA, mas de habilidades humanas
Susan afirmou que, com a inteligência artificial, muitos têm a falsa impressão de estar no controle. “Mas eu tenho uma novidade para vocês”, disse, em tom de brincadeira. “Como comunidade, não estamos navegando essa realidade de forma sustentável. Todos falam sobre a revolução da IA, mas temos níveis nunca vistos de problemas de saúde mental. A OMS nos diz que, até 2030, a depressão vai ser a maior causa de deficiência globalmente, mais do que doenças do coração e câncer. Essa tendência está afetando todos nós.”
A pesquisadora pontuou que, para além das ferramentas tecnológicas, o mundo corporativo passa por um momento acelerado de constante transformação. Essas tendências fazem com que as habilidades emocionais como adaptação, coragem, criatividade e compaixão se tornem fundamentais para organizações bem-sucedidas.
“Não acredito que estamos em uma revolução de IA, estamos em uma revolução de habilidades humanas. A IA está tornando a experiência humana uma commodity e essas habilidades serão fundamentais para diferenciar as estratégias de hoje para amanhã.”
3. O RH estará na linha de frente de organizações bem-sucedidas
Para Susan, o trabalho molda o mundo para que ele continue funcionando, mas que essa não é a crença de muitas organizações. Susan diz que, para estas empresas, o maior valor do trabalho é está na criação de estratégias e metas, que ajudam a chegar a uma “luz no fim do túnel” – prática que proporciona um ambiente polarizado, em que cada um está focado apenas em seu departamento e funções.
“Eu creio que a capacidade verdadeira não é relacionada a correr atrás daquela luz, mas aprender a ver melhor no escuro. A verdadeira capacidade é reconhecer que a fragilidade e a beleza estão entrelaçadas”, completa ela ao afirmar que as habilidades humanas são a chave para seguir esse caminho.
Para Susan, as softs skills, que são as habilidades ligadas a comportamentos e relações interpessoais, ganham cada vez mais destaque em um mundo altamente tecnológico. “As habilidades humanas têm sido degradadas, chamadas de soft skills, por décadas. Essas serão as mais cruciais do mundo agora. E os departamentos de RH estão na linha de frente na capacidade de criar organizações que são bem-sucedidas.”
4. O desconforto é o preço que pagamos por uma vida significativa
Susan diz que, em muitas organizações, existem líderes que orientam seus colaboradores a serem positivos, sem apoiá-los em sua jornada emocional. No entanto, a psicóloga afirma que é no desconforto que há crescimento – seja profissional, familiar ou pessoal. E neste contexto, é importante que as pessoas aprendam a interpretar suas emoções.
“O mundo tem essa falsa positividade, que chamamos de negação. Muitas vezes é pintado de arco-íris, unicórnio, mas é negação. O desconforto é o preço que pagamos por uma vida significativa. Sem interpretar esse desconforto, ele começa a orientar as nossas ações e nos levar a ser versões menos valiosas e poderosas de nós mesmos”.
5. Emoções são dados e ditam os nossos valores
A psicóloga afirma que a essência é o que nos mantém equilibrados em um mundo em constante mudança. Por isso, é importante ter a coragem de entender as emoções, e encará-las como informações valiosas.
“As emoções são dados, elas ditam os nossos valores e o que importa para nós. Não são diretrizes, são valores que devem guiar o nosso caminho”, acrescenta. “Agilidade emocional é ter coragem de dar passos conectados aos nossos valores. E coragem não é a ausência de medo.”
Susan recordou que, durante sua infância, tinha medo de que seus pais morressem durante a noite, enquanto dormiam. Então, ela passou a ir até o quarto deles para checar se tudo estava bem. “Eu ia para a cama deles e dizia para o meu pai: ‘prometa que você nunca vai morrer’. E ele poderia ter dito: ‘e os seus KPIs? Seus planos de cinco anos? Seus objetivos?’. Mas ele disse: ‘Todos nós morremos, é normal ter medo’. O que eu entendi foi que podemos caminhar através da porta com coragem, porque é o sentimento que expressa o medo em movimento. E a vida pergunta a cada um de nós se somos ágeis.”
6. Aceitação e precisão são essenciais para ter agilidade emocional
Porém, como é possível se desfazer da rigidez e colocar a agilidade emocional em prática? Susan explica que é preciso adotar duas posturas: aceitação e precisão. “A aceitação não deve ser a resignação passiva. É enfrentar o fato de que há uma porta, não sabemos o que tem atrás dela, e precisamos ter coragem de andar até lá. Isso é crucial.”
“Já a precisão é uma habilidade básica da formação, fundamental para os seres humanos e as organizações. Há um mundo de diferença entre estresse e perceber que você está na carreira errada. Sem nomear as nossas emoções precisamente não conseguimos avançar de maneira eficaz.”
A psicóloga explica que ao dizer “estou triste” ou “estou ansioso” é como se 100% do seu ser estivesse prejudicado. Por isso, é importante aprender a nomear as emoções, e pensar sobre a percepção que temos sobre elas.
“Quando digo: ‘eu estou’ é como se fossemos uma nuvem no céu, e como seres humanos, especialmente em um mundo polarizado, precisamos entender que não somos vítimas da história que acontece conosco. Não sou a nuvem, sou o céu. Somos capazes de sentir tudo o que sentimos e ainda caminhar em direção à porta.”

7. Não é possível criar uma cultura organizacional saudável evitando emoções
A noite seguiu para o segundo painel, com um debate enriquecedor entre Susan David, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e o economista Eduardo Giannetti, mediado pelo jornalista Ernesto Paglia. Os participantes conversaram sobre como a cultura latina molda o jeito dos profissionais brasileiros se sentirem e liderarem.
Durante o debate, Susan afirmou que criar uma relação com o desconforto e a incerteza é a capacidade mais essencial para prosperar nos dias de hoje. “Não há inovação sem uma possível falha, nem colaboração sem conflito. Em qualquer momento que trabalhamos na liderança ou na organização, quando as pessoas evitam emoções, isso é ligado à falta de relacionamento com a coragem.”
Para a psicóloga, é preciso compaixão e coragem para ter sucesso. Sem elas, as pessoas se sentem desmotivadas e desengajadas – o que é uma questão no Brasil: segundo a 3ª edição do Engaja S/A, estudo exclusivo da Flash que mede o índice de engajamento dos trabalhadores brasileiros, apenas 39% dos profissionais se sentem engajados nos seus trabalhos.
“Precisamos lidar com as coisas complexas e há muito colapso de nuances. Uma das capacidades essenciais dos líderes é administrar essas duas verdades: a necessidade de ir em frente e reconhecer o sentimento das pessoas, com coragem e medo. Não podemos ter nada disso a menos que caminhemos e convivamos com o desconforto.”
Lilia Schwarcz complementou Susan, dizendo que a expressão intensa de sentimentos e a afetividade que a cultura latina e brasileira carrega pode ser um ponto forte. “Usar o nosso afeto no sentido de estar afetado pelo outro pode ser um problema, mas também uma solução, quando usamos das relações e do afeto nas nossas empresas e família.”
Para Eduardo Giannetti, o brasileiro precisa aprender a reconhecer e lidar com as próprias emoções é uma característica bela e que faz sentido. “É construção de vínculo. O brasileiro faz questão de ser tratado como pessoa, e não como número. Temos que aprender a valorizar que a afetividade é parte do nosso DNA, e isso não deve nos envergonhar”, completou o economista.
8. Locais de trabalho dependem da vulnerabilidade, mas não são terapia
Para encerrar a noite, Ernesto Paglia trouxe uma provocação aos participantes do evento: “o que os líderes devem desaprender sobre emoção, cultura e tecnologia para construir um futuro menos distópico?”.
Lilia abriu a rodada de respostas dizendo que os líderes devem esquecer a ideia de que emoção é sinônimo de irracionalidade, que só eficiência basta e que a tecnologia é neutra. “Vamos ter que desaprender que o trabalhador é uma peça substituível. Temos que construir mais a ideia de trabalho para a cidadania.”
Para Eduardo, a resposta está em aprender a começar de novo, e desaprender o “complexo de vira-lata” no país. “Nos acostumamos a imaginar que somos uma cópia mal-feita de um modelo ocidental que nunca alcançamos. Mas temos um outro ideal. Com mais lugar para espontaneidade, capacidade de desfrutar o momento, sem grandes neuras em relação ao amanhã. É disso que o mundo precisa. Entre ser o pastor-alemão da polícia e o poodle da madame, eu prefiro ser o vira-lata.”
Por fim, Susan afirmou que é preciso desaprender o imaginário de que sentir as emoções e expressá-las são a mesma coisa. A psicóloga diz que essa ideia está ligada ao conceito de vulnerabilidade, movimento que se intensificou após a pandemia de covid-19.
“A vulnerabilidade é muito importante no nosso mundo e para as conexões. Mas, quando sentimos algo e simplesmente expressamos, todo mundo que trabalha com a gente tem que administrar esses pedacinhos, e o que estamos fazendo é terceirizar o processamento de nossas próprias feridas baseado na reação dos outros. Os locais de trabalho dependem da vulnerabilidade, mas não são terapia.”
A especialista diz que é preciso ter uma vulnerabilidade sábia, para que os líderes não sintam que estão segurando tudo em suas mãos. “Enxergar as emoções dos outros é muito importante, mas isso é uma coisa diferente de ter o seu local de trabalho travado dentro daquela ferida e fazer com que os líderes tenham que ser psicólogos.”
“É muito importante que nossas emoções sejam nossas para serem processadas, não dos nossos líderes. Temos que pegar essas emoções e levar para uma terapia ou compartilhar com as pessoas que amamos, para que possamos entender o que elas dizem sobre os valores que levamos para o trabalho. Se conseguirmos fazer essa recalibragem, vamos ter organizações e pessoas muito mais saudáveis.”
Sobre a Flash
Quando a Flash surgiu, nós tínhamos como objetivo revolucionar o mercado de benefícios no Brasil. De lá para cá, avançamos ao trazer agilidade, tecnologia e flexibilidade tanto para RHs quanto colaboradores.
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Jornalista formada pela USP, com passagens pela Folha de S.Paulo e Grupo Perfil. Na Flash, cobre recursos humanos, financeiro e carreira.

