É ótimo ser vira-lata: o que o DNA latino ensina ao mundo do trabalho
Susan David, Lilia Schwarcz e Eduardo Giannetti analisam o impacto das raízes sociais e culturais na forma como trabalhamos
Foi com uma aposta ousada que a 5ª edição do Flash Humanidades promoveu um debate profundo e necessário: como a cultura latina molda o jeito que trabalhamos, sentimos e lideramos?
Para responder essa pergunta, o evento reuniu a psicóloga e criadora do conceito de agilidade emocional Susan David, a antropóloga Lilia Schwarcz e o economista Eduardo Giannetti.
Em painel mediado pelo jornalista Ernesto Paglia, Schwarcz e Giannetti trouxeram um complemento histórico e econômico aos conceitos apresentados por Susan David, que abriu a noite com uma palestra sobre como liderar quando é desconfortável, encarando as emoções como dados valiosos.
O Flash Humanidades reuniu cerca de 500 convidados entre líderes e gestores de RH no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no dia 14 de maio. Promovido anualmente, o evento tem o objetivo de debater grandes questões do mundo corporativo, e já recebeu referências internacionais como Ram Charan, Dave Ulrich, Kate Darling e Esther Perel.
A seguir, você confere insights do painel inédito que aprofundou a principal reflexão da noite: a questão principal do trabalho não é apenas tecnológica, é também humana.
Afetividade, que está em nosso DNA, não é fraqueza
“Eu já ouvi ‘o algoritmo não gosta de mim’ ou ‘o Instagram é meu amigo’. Então surgem as questões: como vamos lidar com esse mundo da tecnologia? Como é possível humanizar a tecnologia?”, perguntou a historiadora Lilia Schwarcz.
Para Susan David, a probabilidade de passar por essas transformações tecnológicas com sucesso está justamente na humanização e no entendimento das emoções. “Tenho um doutorado em psicologia e, ainda assim, era incapaz de encontrar alguém que pudesse me orientar [em pesquisas], porque muitos consideravam emoções inúteis. Essa é a palavra que mais nos desumaniza. Como se toda essa parte de nós não importasse.”
Schwarcz emendou ao dizer que o afeto da cultura latina pode ser visto como um problema, porém, também é uma solução no contexto das relações no trabalho. Eduardo Giannetti acrescentou que o brasileiro tem um perfil mais humano, e isso deve ser valorizado. “O brasileiro faz questão de ser tratado como pessoa, e não como número. Temos que aprender a valorizar que a afetividade é parte do nosso DNA, e isso não deve nos envergonhar.”

É ótimo ser “vira-lata”
Eduardo Giannetti pontuou ainda que a cultura latina carrega ideais diferentes de um “modelo ocidental”. Para explicar o raciocínio, ele citou o “complexo de vira-lata”, conceito popularizado pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, ao se referir à decepção sofrida pelos brasileiros em 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pela Seleção Uruguaia na final da Copa do Mundo em pleno Maracanã.
“Precisamos desaprender o nosso complexo de vira-lata aqui no Brasil. Nos acostumamos por muito tempo a imaginar que somos uma cópia mal-feita de um modelo ocidental que nunca alcançamos. Temos um outro ideal, com mais lugar para espontaneidade, capacidade de desfrutar o momento, sem grandes neuras em relação ao amanhã. É disso que o mundo precisa.”
O especialista concluiu a fala dizendo que o problema está na ideia de que é errado ser vira-lata. “O verdadeiro complexo de vira-lata, no fundo, é que há algo errado em ser vira-lata. É ótimo ser vira-lata. Entre ser o pastor-alemão da polícia e o poodle da madame, eu prefiro ser o vira-lata.”

Menos resignação, mais propósito: o movimento da Geração Z
Lilia Schwarcz explicou que o trabalho no Brasil tem sua base relacionada à exploração e violência, estruturando-se por meio da escravização de povos indígenas e africanos. Para ela, isso se reflete até hoje na forma como o trabalho é visto. “A história é assim, é o rio que passa. Ela não é a pedra, é o rio. Ela não traz toda a verdade, mas é um lembrete.”
Esse ponto foi relacionado ao estereótipo de que a Geração Z (jovens nascidos entre 1997 e 2012) estaria rejeitando o modelo atual de trabalho, o que foi refutado por Giannetti. O economista apontou que os nativos dessa geração se preocupam em encontrar propósito no trabalho, sem abrir mão de sua saúde mental, o que é um movimento crescente no país.
“A Geração Z tem uma preocupação muito grande em fazer coisas que tenham sentido para ela, e não se resignar àquela sensação em que a pessoa só se sente ela mesma quando não está trabalhando. No Brasil temos muita força nessa direção, de resgatar para o trabalho o sentido de realização. Não é simplesmente algo que se faz a contragosto para ter um salário no fim do mês.”
Esse panorama ganha urgência quando olhamos para os dados reais do mercado nacional. De acordo com a 3ª edição do Engaja S/A, estudo exclusivo da Flash que mede o índice de engajamento dos trabalhadores brasileiros, 61% dos profissionais estão desengajados no trabalho e 6 em cada 10 trabalhadores pensam em pedir demissão com alguma frequência.
Eduardo Giannetti acrescentou que o movimento é essencial para as lideranças passarem pelas transformações que o mundo do trabalho enfrentará. “Essa é a verdadeira liderança: trazer as pessoas inteiras para o trabalho. E a emoção faz parte disso. A pessoa não vai fazer bem o que ela faz, se ela não estiver inteira. Se ela não ver um propósito que se liga na sua plenitude e completude.”
O que as lideranças precisam desaprender para o futuro?
Ao fim do painel, Ernesto Paglia trouxe uma provocação: “o que os líderes devem desaprender sobre emoção, cultura e tecnologia para construir um futuro menos distópico?”.
Em sua réplica, Lilia Schwarcz destacou o impacto que as emoções e a tecnologia têm no mundo do trabalho. “Temos que desaprender que emoção é igual irracionalidade: emoção e racionalidade podem caminhar juntas. Temos que desaprender que só eficiência basta: ela não basta. Temos que desaprender que a tecnologia é neutra. Ela está nas nossas mãos também. Vamos ter que desaprender de que o trabalhador é uma peça substituível. Temos que construir mais a ideia de trabalho para a cidadania.”
Esse descompasso entre repensar o futuro e a prática atual nas empresas é real. Segundo a pesquisa inédita A visão dos CEOs sobre o RH no Brasil, lançada pela Flash em parceria com a FIA Business School, apenas 8% dos CEOs enxergam o RH como protagonista na pauta de inteligência artificial. Para 34% das lideranças, a atuação da área diante da IA ainda tem sido predominantemente focada em treinamentos e ajustes de processos, sem redesenhar o modo como o trabalho de fato acontece.
Giannetti acrescentou que vivemos um momento de excesso de tecnologia, em que as organizações devem trabalhar para aprender a lidar com a nova realidade que a inteligência artificial apresenta. “Ela não substitui a espontaneidade, mas vai transformar as nossas habilidades, valorizando as humanas.”
“Não podemos, em nenhum momento, perder a dimensão que essas máquinas são ferramentas feitas para o bem-estar, a produtividade e o benefício humano. Temos um longo aprendizado para sabermos colocá-las a nosso serviço”, completou.
Em relação a emoção e racionalidade, Susan David disse que é preciso aprender a separar os sentimentos de suas expressões. Ela afirmou que para um ambiente de trabalho saudável, é preciso ter espaço para uma vulnerabilidade sábia.
“É muito importante para uma organização saudável que nossas emoções sejam nossas para serem processadas, não dos nossos líderes. Temos que pegar essas emoções e levar para terapia, compartilhar com as pessoas que eu amo, para que eu entenda o que elas me dizem sobre os meus valores e os valores que levo para o trabalho. Se conseguirmos essa recalibrada, vamos ter organizações e pessoas muito mais saudáveis.”
Sobre a Flash
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Jornalista formada pela USP, com passagens pela Folha de S.Paulo e Grupo Perfil. Na Flash, cobre recursos humanos, financeiro e carreira.


