Com as atualizações da NR-1 em vigor desde o final de maio, muitas empresas ainda patinam nessa adaptação, mesmo com as multas e sanções administrativas estando suspensas temporariamente por determinação do STF. Na contramão desse movimento, o Grupo Cornélio Brennand, que atua nos setores de geração de energia através de fontes renováveis, vidros planos e desenvolvimento imobiliário, faz a identificação de riscos psicossociais há quase três anos e hoje passa por um momento de consolidar e aprimorar ações que já vêm sendo estruturadas muito antes de o assunto virar pauta nacional.
Paulina Sarubbi Cysneiros, diretora de pessoas e sustentabilidade da empresa pernambucana conta que a companhia vive, com a NR-1, um momento de “reforço em uma jornada que já fazia parte do grupo”.
A executiva aponta que a preocupação com o bem-estar e a saúde mental do colaborador é uma prioridade antiga da companhia, mas o tema ganhou força no pós-pandemia. Em 2025, por exemplo, o grupo conquistou o primeiro lugar no Prêmio Vittude de Saúde Mental, na categoria Empresa de Médio Porte, premiação pioneira no Brasil dedicada exclusivamente a práticas estruturadas de saúde mental no ambiente corporativo.
Em entrevista exclusiva ao Flash Humanidades, a diretora aprofunda a jornada da empresa no tema e detalha ações como suporte emocional 24 horas por dia para colaboradores e familiares até licença-paternidade estendida.
Enquanto muitas empresas tentam se adequar à NR-1, o Grupo Cornélio Brennand é um case nessa adaptação. Como isso entrou no radar de vocês?
O cuidado com as pessoas sempre fez parte do DNA do Grupo Cornélio Brennand e de um dos nossos valores, que é Integridade. Esse valor define nosso nome como sinônimo de confiança e de respeito aos acordos, defendendo que as nossas atitudes devem colocar as pessoas sempre em primeiro lugar.
No pós-pandemia, esse tema ganhou ainda mais força, especialmente pelas mudanças no modelo de trabalho e pelo aumento das discussões relacionadas à saúde mental. A partir daí, passamos a estruturar essa agenda com mais intencionalidade, conectando o tema de forma estratégica como parte das verticais de atuação da área de SSMA [Saúde, Segurança e Meio Ambiente] e ESG, e um olhar mais preventivo e integrado.
A NR-1 influenciou as decisões e o ritmo das ações?
Em 2022, iniciamos nosso programa “Faz Bem”, com ações educativas, de sensibilização, estímulo a práticas esportivas, bate-papos internos, disponibilidade de rede de parceiros para serviços de saúde e bem-estar e outras iniciativas que foram se consolidando em um olhar preventivo.
Em 2024, aderimos ao Movimento Mente em Foco, criado pelo Pacto Global da ONU Brasil para acelerar as metas propostas pela Agenda 2030 [plano de ação global da ONU com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e para erradicar a pobreza e proteger o planeta] em atenção à saúde mental no ambiente de trabalho. Antecipando, assim, nossa jornada de promoção do bem-estar e gestão de riscos psicossociais.
Quais são os maiores desafios para se adaptar à nova regra?
O principal desafio está na mudança de mentalidade: sair de um modelo onde tratamos o efeito para atuar nas causas, os riscos psicossociais. Além disso, precisamos continuar garantindo o bom ambiente que temos, saudável e com alto grau de segurança psicológica, a integração entre áreas e a consistência na execução dos planos de ação.
Vocês fizeram alguma pesquisa para entender a realidade da empresa? Olharam especificamente para os riscos psicossociais?
Sim, fizemos as duas coisas. Em 2024 aplicamos um censo psicométrico com foco em saúde mental, em linha com práticas indicadas no movimento Mente em Foco, que apresentou um resultado do Grupo Cornélio Brennand na zona de excelência. Podemos dizer que a NR-1 orientou o direcionamento e a formalização das iniciativas, garantindo que o que já vinha sendo trabalhado fosse estruturado dentro do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), com maior rastreabilidade e foco em ações mais consistentes e preventivas.
Em 2025, estruturamos um questionário específico para atendimento aos requisitos da NR-1, voltado à identificação de riscos psicossociais. A aplicação é 100% anônima e ele é construído com base em referências técnicas, como a ISO 45003 [primeira norma internacional que fornece diretrizes práticas para a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho].
O foco é na percepção do colaborador sobre a organização do trabalho. O questionário atende à necessidade normativa e permite uma leitura mais estruturada e escalável dos riscos. A partir dos resultados, faremos o monitoramento contínuo e a construção de planos de ação junto às lideranças.
Vocês contam com quais outras ações?
Temos atuado combinando monitoramento e ação prática, com foco não apenas em identificar riscos, mas também na organização do trabalho e na atuação das lideranças, com iniciativas como as seguintes:
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Cuidado 24h: diariamente e de forma ininterrupta, todos os colaboradores e seus familiares têm acesso a atendimento para suporte emocional. O acesso à rede de assistência psicológica, financeira, jurídica e social pode acontecer via telefone, e-mail ou aplicativo.
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Check-in emocional: acontece quinzenalmente por meio de formulário anônimo com perguntas que buscam aferir percepções e sentimentos do colaborador sobre questões relacionadas a trabalho ou de âmbito pessoal. Além de gerar dados que podem orientar novas iniciativas de cuidado, possibilita a identificação precoce de sinais de atenção à saúde mental, sempre respeitando os critérios de confidencialidade e proteção de dados, conforme a LGPD. Em situações em que o respondente se identifique, disponibilizamos atendimento psicológico individualizado e de forma confidencial.
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Licença-maternidade e paternidade: além de aderir ao Programa Empresa Cidadã, que garante licença maternidade e paternidade estendida, por meio do GCBaby, colaboradoras mães contam com acompanhamento médico e apoio contínuo durante a gestação, puerpério e no retorno da licença-maternidade. Em 2025, o programa foi estendido aos colaboradores pais, que também passaram a contar com orientação especializada durante esse período da vida familiar.
Considerando o fato de vocês atuarem em diferentes estados e segmentos, houve desafios específicos?
Esse é um ponto relevante, dado o perfil diverso do grupo. Os principais aspectos que precisamos considerar foram a adaptação da linguagem e abordagem às diferentes realidades, o respeito aos níveis de maturidade específicos das operações e a necessidade de proximidade com lideranças locais. Por isso, adotamos um modelo com diretrizes corporativas, mas com flexibilidade para aplicação local.
De início, algo não funcionou como esperado e precisou ser ajustado?
Um aprendizado importante foi perceber que ações mais pontuais, como campanhas ou comunicações isoladas, têm impacto limitado quando não vêm acompanhadas de mudanças estruturais. Pensando nisso, o foco está em atuar diretamente na causa dos problemas.
As lideranças recebem treinamento específico?
Sim. As lideranças são um dos pilares dessa agenda. Temos atuado com capacitação em gestão de pessoas, sensibilização sobre riscos psicossociais e orientação prática para atuação no dia a dia. Em 2025, promovemos uma Formação dos Guardiões da Saúde Emocional, com lideranças de diversas unidades de negócio do grupo, voltada à preparação das nossas pessoas para escuta, acolhimento e promoção do cuidado emocional no ambiente de trabalho.
Qual o protocolo quando identificam um colaborador com problemas?
Temos um fluxo estruturado que envolve escuta inicial e acolhimento, direcionamento para canais internos de apoio, acompanhamento pela liderança, área de pessoas e de saúde. Caso o colaborador deseje manter a confidencialidade, ele pode utilizar o canal da Optum, que disponibilizamos sem custo e fica 24 horas disponível para suporte emocional.
Já existem resultados tangíveis que mostram benefícios dessas ações ao quadro de colaboradores e à empresa?
Temos observado avanços relevantes, principalmente em uma maior abertura para tratar o tema, o fortalecimento da atuação das lideranças e maior integração entre as áreas líderes do assunto [SSMA e ESG, que fazem parte da Diretoria de Pessoas e Sustentabilidade] e as áreas operacionais.






