A maior mudança que a inteligência artificial trouxe para a minha rotina não foi fazer mais rápido, mas decidir melhor onde dedicar meu tempo.
Quando usada de forma consciente, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ampliar a qualidade das decisões (e também das relações). Na prática, isso significa abrir espaço para aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: conectar pessoas, resolver conflitos e pensar estrategicamente sobre o futuro da empresa.
Como CRO/CMO da Flash, vi um salto enorme do operacional para uma atuação mais estratégica. Na gestão, a IA tem me proporcionado maior velocidade na interconexão de áreas, prioridades e decisões em um grande guarda-chuva. Também tem trazido mais assertividade nas informações que circulam e tempo livre para estar justamente onde a liderança faz diferença — conversas difíceis, resolução de conflitos e decisões que exigem julgamento humano.
Essas ferramentas me tornam mais produtivo, mas, principalmente, ajudam a direcionar minha atenção para onde ofereço mais impacto. Consigo entender melhor onde evoluir, potencializar pontos fortes e tomar decisões com mais contexto.
Essa lógica não vale apenas para mim, ela se estende para toda a empresa. Com IA, por exemplo, nossos vendedores não precisam mais ficar preenchendo inúmeros formulários, pois tudo é transcrito e registrado de forma prática e automatizada. Com isso, liberamos esses profissionais para fazer o que realmente importa: ter conversas de qualidade com clientes e desenvolver a inteligência do pipeline comercial, o que ajuda a avaliar o pitch e ter uma melhora constante após cada reunião.
Em marketing, consigo veicular vários testes paralelos e entender rapidamente qual criativo realmente performa melhor, mesmo quando as diferenças entre eles são pequenas. Isso acelera o aprendizado, permite escalar com muito mais precisão e também gera economias importantes de produção.
Essa prática já é realidade na Flash. Construímos um sistema de mini SaaS (modelo de Software como Serviço) interno, que, plugado em nosso CRM, ajuda a ter tudo o que um vendedor ou account manager precisa, indicando o que deve ser priorizado em seu dia.
O desafio não é adotar IA, é saber onde ela realmente gera valor
Se bem usadas, as vantagens da IA são enormes, mas é preciso falar também das partes não tão boas assim. Hoje, vejo que o uso da inteligência artificial carrega um risco: a sensação de que precisamos testar todas as ferramentas novas que aparecem.
A velocidade da IA cria uma ansiedade constante de acompanhar tudo, e isso pode fazer as empresas perderem o foco.
Queremos estar antenados e tendemos a querer testar tudo que aparece de novo. Novas tecnologias vão surgir o tempo todo; e ferramentas e plataformas terão melhorias. Como líderes, nosso papel é priorizar, ajudando as pessoas a navegar pela enxurrada de novidades, notícias e lançamentos que o atual universo das IAs oferece.
Uma analogia simples: se comprei um carro há um ano e meio e sai um modelo novo, provavelmente ele será melhor. Mas será que a diferença é suficiente para justificar trocar agora? Talvez faça mais sentido conhecer o carro que já tenho, rodar 40 mil quilômetros com ele e só depois vendê-lo. Com IA acontece a mesma coisa.
Antes de escolher uma ferramenta, precisamos entender qual problema queremos resolver. Sem clareza sobre a dor, acabamos acumulando plataformas, pagando mais caro e usando menos e pior do que poderíamos
Ao longo do ano vimos casos de empresas que estouraram o custo com IA. Nem sempre conseguimos pagar ferramentas para todos, mas podemos definir perfis chaves na tecnologia, e fazer com que esse uso seja disponibilizado de maneira mais escalável e democrática, com pontos focais nas equipes.
Hoje ouvimos empresas dizendo que têm milhares de agentes de IA. Eu não sei se isso é bom ou ruim. Talvez uma dezena de agentes realmente bem desenhados gerem muito mais resultado do que centenas funcionando ao mesmo tempo.
IA não muda empresas. Pessoas, sim
É aí que vejo um papel fundamental para o RH. Enxergo o departamento como o principal arquiteto dessa transformação cultural. É a área que consegue entender onde a tecnologia faz sentido, quais equipes precisam de mais apoio e onde vale direcionar investimento, treinamento e energia.
Ao mesmo tempo, existe uma responsabilidade que cresce junto com a IA: a de humanizar as relações de trabalho. Quanto mais tecnologia existe, mais importante fica o papel da liderança.
É enganoso cair no papo raso de que uma IA vai substituir 20 pessoas e ter mais eficiência. Não é isso. Com IA, consigo ser mais assertivo e vender mais, ter mais tempo para que as pessoas foquem em processos estratégicos. Elevo o nível da gestão.
Nenhuma empresa vai capturar valor da inteligência artificial apenas comprando tecnologia, mas sim formando pessoas capazes de trabalhar melhor com ela. É exatamente aí que vejo o papel do RH nos próximos anos.
É a área de gente e cultura que precisa garantir que essa transformação aconteça e se sustente no negócio. Na Flash, essa lógica faz parte da empresa desde a fundação. Por isso, quando penso nos próximos cinco anos, não imagino uma ruptura. Imagino uma evolução do que já estamos construindo hoje: uma plataforma de gestão do trabalho fluida e integrada, que facilita a rotina das empresas e dos trabalhadores.
Comece pelas dores, não pela ferramenta
Se eu pudesse dar um último conselho a quem está começando essa jornada, seria: converse com quem já está usando IA de forma consistente, mas não copie ferramentas.
Entenda primeiro quais problemas faz sentido resolver no seu contexto. Depois disso, estruture prioridades e escolha pessoas que possam liderar essa transformação em tempo integral. Só então faz sentido expandir o conhecimento para o restante da organização. A tecnologia muda rápido, mas a capacidade de aprender e se adaptar continua sendo o principal diferencial competitivo.
No fim, IA não substitui julgamento, liderança e cultura. Ela amplia a capacidade de fazer tudo isso melhor. Para mim, esse sempre foi o verdadeiro papel da tecnologia: criar espaço para que as pessoas façam aquilo que só as pessoas conseguem fazer.
Sobre o(a) Autor(a)

Guillermo Gomez é sócio e CRO/CMO da Flash. Com passagens por empresas como Morgan Stanley, LEK, Latam, Ame e Flash, tem dupla titulação em direito e finanças pela Universidade Complutense de Madrid e MBA da Columbia Business School.
LinkedIn



