Não há discussão que as organizações devem oferecer condições de trabalho saudáveis, garantindo um ambiente sustentável e funcional, que dê acesso a recursos e uma cultura organizacional que permita utilizá-los.
Enquanto temos, de um lado, a inteligência artificial com adesão acelerada nas companhias, que assume um papel de aliada e facilitadora nas tarefas diárias, por outro lado, estamos essa potencialidade da nova tecnologia também traz contrapontos que precisam ser observados.
Desde os primórdios, o ser humano busca por novas tecnologias, capazes de proporcionar facilidades, menos tempo de execução de tarefas e produtividade. Todavia, hoje não é mais isso que vem ocupando espaço de preocupação na mente dos indivíduos. Hoje, o foco principal é mais filosófico: o porquê existir.
O médico Vicktor Frankl, sobrevivente do holocausto, criador da abordagem terapêutica Logoterapia e autor de um dos livros mais conhecidos do mundo – entitulado “Em Busca de Sentido”–, aborda o paradoxo da sociedade que cria meios para viver, mas perde as razões pelas quais existir. Hoje as pessoas têm os meios para viver, mas nenhum sentido pelo qual viver.
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Como está a saúde mental do RH?
No contexto atual de sociedade em que vivemos, o RH vive um paradoxo. Segundo dados da 4ª edição do Panorama da Saúde Emocional do RH, estudo do Flash Humanidades com o RH Summit, que pude participar da revisão técnica do estudo, a inteligência artificial já está na rotina de 87% dos RHs e reduz parte do trabalho operacional, mas não devolveu tempo livre à área.
Percebemos que houve uma queda na parcela de RHs que se sentem sobrecarregados: o dado passou de 90% em 2023 para 64% em 2026. Ainda assim, seis em cada dez profissionais da área relatam algum problema de saúde mental no último ano, e os casos de burnout subiram de 5% para 9%.
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Porém, a contradição talvez seja só aparente. O volume alto de tarefas nem sempre é o responsável por toda sobrecarga. Em muitos casos, a intensidade das tarefas também pode causar um peso emocional importante.
Papel da empresa x do colaborador sobre a saúde mental
Mas qual o papel da empresa e o do colaborador dentro desse cenário desafiador? Olhar para o contexto de hoje as pessoas terem os meios para viver, mas falta o motivo para seguir os dias, pode ajudar a compreender como anda a maturidade emocional das pessoas frente a autorresponsabilidade pelo gerenciamento e o cuidado de si mesmo que independe em que momento de sua vida economicamente ativa esteja.
É importante trazer o limite da responsabilidade do que é a parte da empresa como facilitadora e a do colaborador como agente ativo e protagonista de seu autocuidado. Ressalto que nenhuma empresa acompanha ou acompanhará alguém por toda vida. Vínculos profissionais mudam, a responsabilidade da pessoa consigo mesma atravessa essas mudanças.
O autocuidado deve ser encarado como uma competência, ou seja, não é apenas a capacidade de reconhecer e consumir um benefício ou reservar momentos de descanso. É ter uma consciência ativa, autoobservadora, um interesse em estudar a si mesmo com a finalidade de aprender a reconhecer necessidades, fazer escolhas, estabelecer limites e agir de modo coerente com a vida que se deseja construir.
O que se pode entender na prática é que a corresponsabilidade se manifesta nas pequenas decisões diárias. As organizações podem disponibilizar, por exemplo, apoio psicológico, ações de prevenção, programas de atividades físicas e orientações de saúde. Por outro lado, cabe ao colaborador conhecer esses recursos, avaliar o que, como e quando precisa deles e tomar a decisão de utilizá-los.
Também cabe ao colaborador, observar o que acontece fora do expediente do trabalho, na gestão da sua vida pessoal: como está dormindo, de que maneira se alimenta, quais relações têm cultivado, quanto tempo reserva para movimentar o corpo, qualidade dos alimentos que ingere e quanto espaço reserva de tempo para atividades que dão sentido à sua vida.
Ressalto que nenhuma dessas escolhas resolve, isoladamente, todas as dificuldades. Elas funcionam juntas e coordenadas, pois expressam uma atitude de atenção à própria saúde e isso ninguém pode fazer em nosso lugar.
RH precisa olhar para a própria saúde mental
Afirmo: nosso corpo é um templo. Como você anda cuidando dessa morada enquanto a tem?
Quero deixar um recado para os meus colegas de profissão em Recursos Humanos. Ao participar de forma ativa e contínua do cuidado com as pessoas nas empresas, é possível passar o dia atento às necessidades dos outros e não perceber seus limites e necessidades próprias, assumindo uma postura negligente consigo mesmo, mesmo que de forma não proposital.
O profissional de RH também precisa reconhecer seus limites, pedir ajuda e avaliar o preço que certas rotinas estão cobrando. Ensinar, divulgar e conhecer as políticas de bem-estar é parte do trabalho, mas sem esquecer que é permitido recorrer a elas quando você precisa. Isso é zelar pelo seu autocuidado.
“Que minha vida seja mais longa que minha carreira”. Esta é minha frase autoral em uma fase reflexiva de minha vida diante de alguns momentos de adversidades, e que faz parte e é inerente na vida de cada um de nós. Ela se traduz em dizer que a carreira é parte da vida, mas não sua totalidade.
Se o nosso tempo é finito, com que qualidade queremos viver os próximos anos de nossas vidas? O que precisamos cuidar hoje para não entregar a saúde inteira às urgências do trabalho?
Desenvolver e adquirir essa maturidade emocional passa por retomar a corresponsabilidade sem diluir a autoria pessoal, ou seja, a empresa pode oferecer suporte e melhores condições, mas ninguém pode assumir por nós a condução da nossa própria vida.
A carreira terá suas etapas, as empresas farão parte da nossa história, mas a vida que vivemos é nossa. Cuidar dela é uma responsabilidade que não podemos terceirizar.
Sobre o(a) Autor(a)

Psicóloga, professora de educação executiva FGV, pós-graduação online Artmed/PUCPR em Dependências Digitais e Instituto Inter. Especialista em desenvolvimento humano, maturidade, liderança e saúde integral. Conselheira de Gestão de Pessoas.
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