Nunca se falou tanto sobre inteligência artificial, mas a sensação que fica é que, por mais que acompanhemos de perto as tendências, sempre surge uma novidade capaz de mudar o que achávamos que já estava definido.

Foi para tentar entender melhor o que está sendo discutido por quem está na fronteira dessa transformação que embarquei para Nova York com um grupo de executivos, CHROs, CEOs, empreendedores, para participar do Mirante @ New York 2027, uma imersão da escola Koru, feita em parceria com o Flash Humanidades.

Durante cinco dias, conversamos com professores de universidades como Berkeley, Yale, Columbia e NYU e especialistas de empresas como Perplexity e Microsoft. Nos encontros, foram discutidos temas que vão do futuro do trabalho e da gestão de talentos à governança, segurança de dados, inovação e o papel das lideranças nessa transição.

Fui percebendo que, quando falamos sobre o futuro do trabalho na era da IA, ainda estamos longe de ter respostas definitivas. Na verdade, estamos tentando entender como serão os novos modelos de trabalho, quais habilidades serão necessárias, como as organizações vão lidar com seus dados e até onde os agentes de IA vão mudar a forma como trabalhamos.

É sobre esses aprendizados, e sobre o que eles já começaram a mudar por aqui, na Flash, que quero falar nesta coluna.

Conexões entre empresas e universidades: o segredo dos americanos

O que mais me chamou atenção na viagem não foi uma palestra, nem uma ferramenta, mas a maneira como universidades e empresas se conectam por lá.

Ficou claro que as universidades estão atuando, de fato, como laboratórios vivos de inteligência artificial. Os professores não estão só ensinando, mas estão investindo em startups, levando problemas reais das empresas para dentro das salas de aula e trazendo de volta as ideias dos jovens para virar produto, pesquisa e negócio.

O exemplo mais concreto foi a visita à Microsoft. Eles têm parceria ativa com a NYU (Universidade de Nova York): uma estudante nos mostrou pesquisas que ela desenvolve dentro da universidade usando toda a infraestrutura da Microsoft. Do outro lado, os venture capitals que estavam nas nossas conversas disseram abertamente que ficam de olho nos projetos dos universitários. Não por filantropia, mas porque sabem que é de lá que vêm os fundadores de amanhã.

É um ecossistema que incentiva a inovação e que a gente, por aqui, ainda não aprendeu a montar.

O jovem tem mais para ensinar do que a gente imagina

Raíssa Muller, formada em psicologia e neurociência na Universidade Yale, executiva, investidora e pesquisadora ao mesmo tempo, uma pessoa que bebe de muitas fontes, cofundadora da Learn to Fly, plataforma de desenvolvimento humano, está na universidade, sentada com jovens, o tempo inteiro. E é claramente essa proximidade que alimenta o pensamento dela.

Durante nossas conversas pude perceber que uma questão importante é que subestimamos o jovem o tempo todo. O mercado americano, por exemplo, nunca teve tanta dificuldade de absorver seus recém-formados quanto agora e isso é um grande alerta também para nós. Esses jovens já nasceram digitais. Têm energia, têm familiaridade com esse universo, têm uma forma diferente de pensar problemas.

Saí de Nova York convicta: precisamos nos conectar com essa juventude. Não como favor, mas como estratégia de inovação.

Os dados proprietários vão ser o próximo campo de disputa

Joyce Shen, professora da UC Berkeley também provocou uma reflexão importante: os grandes modelos de linguagem que consumimos hoje já estão com suas fontes de dados se esgotando. Isso quer dizer que eles vão continuar se atualizando, mas o arcabouço de conhecimento público disponível tem um limite.

O que vem a seguir são os dados proprietários, ou seja, o conhecimento produzido dentro das empresas, as transcrições, os processos, as decisões. É aí que a IA vai buscar o próximo salto.

Isso coloca uma pergunta importante para qualquer organização: como estamos gerindo nossos próprios dados? O quanto existe governança, documentação, estrutura para que esse conhecimento interno seja acessível e útil?

Segurança de dados: ignorar é um grande risco

Tivemos uma sessão dedicada à cibersegurança com um dos maiores especialistas do tema: Noam Schwartz, CEO e cofundador da Alice AI, empresa que ajuda organizações como Anthropic, OpenAI e Nvidia a proteger seus modelos de IA contra usos inadequados. E o que ficou, para mim, foi menos sobre soluções e mais sobre a dimensão real do problema.

Quando um colaborador conversa com o modelo de IA da empresa, ele não está só fazendo uma pergunta. Ele está entregando fragmentos de conhecimento, ideias, processos, avanços em andamento e tudo isso, somado, compõe algo valioso. É o “molho secreto” da organização. E vazá-lo representa um risco que a maioria das empresas ainda não mapeou direito.

O especialista fez um alerta: ninguém vai estar completamente blindado. O que dá para fazer é aprender continuamente, entender onde estão as brechas e evoluir junto com as ameaças. E, claro, desconfiar de quem disser que tem a resposta definitiva para isso.

Agentes de IA: como lidar no dia a dia da empresa

Um dos temas que gerou mais discussão entre os RHs da imersão foi a sustentabilidade dos agentes.

É relativamente simples construir um agente que automatize um processo. O problema começa quando a pessoa que criou esse agente sai da empresa. O agente continua rodando? Quem dá manutenção? Se o processo mudar, quem atualiza? Quem é o responsável quando ele erra?

Penso que ainda estamos num estágio muito primário para responder a essas perguntas. O que surgiu como direção, e que faz sentido para mim, é pensar o agente quase como um colaborador: com login de acesso, permissionamentos, governança, responsável designado. Se ele vai ser desligado, quem assume o que ele fazia?

Isso ainda está evoluindo e estamos todos aprendendo ao mesmo tempo.

O RH como arquiteto e não como executor solitário de inovação

Quando a conversa virou para o papel do RH nesse cenário, uma palavra apareceu com força: arquiteto.

Não no sentido de que o RH vai liderar sozinho a agenda de IA. Muito pelo contrário: CEOs, CHROs e CTOs precisam definir juntos os próximos passos. A transformação com inteligência artificial não é uma agenda só de tecnologia, mas também não é uma agenda que o RH consegue conduzir sem o CTO do lado.

O que o RH pode e deve fazer é repensar modelos de trabalho, estruturas organizacionais, perfis de contratação e cultura. Estruturas muito hierarquizadas, por exemplo, nasceram de uma necessidade de controle e monitoramento do trabalho. Se parte desse controle pode ser feito por agentes, que são mais consistentes e escaláveis para determinadas tarefas, a lógica de ter muitas camadas de liderança começa a não fazer mais sentido. Vamos ter que redesenhar o papel do líder.

Soft skills nunca foram tão importantes, e o mercado ainda está errando nisso

Dois dos professores com quem conversamos também atuam como investidores. E quando perguntamos o que eles olham primeiro na hora de investir, a resposta foi a mesma: as pessoas. A capacidade de pivotar, de ir fundo num problema, de fazer as perguntas certas, de ter resiliência quando o caminho muda.

Isso me fez pensar sobre o quanto ainda contratamos pelo técnico e subvalorizamos o comportamental. Numa era em que a base de conhecimento técnico pode ser acessada e atualizada com muito mais facilidade, o que diferencia é o pensamento crítico, a curiosidade intelectual, a capacidade de raciocinar sobre o que a IA entregou — e não apenas repassar.

E tem um problema real que os professores levantaram com preocupação: estamos vendo universitários que fazem trabalhos com IA sem conseguir criticar o que produziram. Que leram o resumo e falam com propriedade do livro. Que perderam o hábito de ir fundo. A superficialidade virou um risco para essa geração.

Isso me deixou com uma pergunta que ainda estou processando: quem vai formar os profissionais com profundidade suficiente para liderar o que vem pela frente?

O que trouxe para a Flash

Voltei para São Paulo com a cabeça cheia de insights, mas também com um plano de ação que já começamos a colocar em prática.

A primeira dessas ações é nos aproximarmos dos jovens brasileiros que estão na fronteira de IA para que tenham um espaço de colocar seu potencial em prática usando tech de ponta.

A segunda: vamos lançar um assessment de fluência em IA para toda a empresa. Não existe ferramenta pronta para isso, então estamos construindo a nossa, com base em vários modelos que estudamos. A ideia é simples: saber onde cada pessoa está e propor trilhas de formação mais adequadas a partir daí.

A terceira: mais hackathons. Reunir pessoas que conhecem muito o problema e pessoas que dominam as ferramentas, e deixar elas resolverem juntas. Vamos começar pelos embaixadores de IA que temos espalhados nas diretorias e terminar construindo uma comunidade interna de troca de experiências.

E a última: vamos revisitar um dos nossos valores — o “aprendemos e transformamos” — e dar a ele uma nova roupagem para o momento que estamos vivendo. Principalmente porque aprender e transformar, em 2026, tem uma dimensão de inteligência artificial que não pode mais ficar de fora.

Com base nesses insights, tenho comigo uma certeza incômoda: a gente não sabe sobre IA tanto quanto pensa que sabe. E talvez seja exatamente por isso que estar perto de quem está aprendendo pela primeira vez (os jovens, as universidades, os laboratórios) seja uma das melhores estratégias que temos agora.

Se você quer saber mais sobre a imersão em Nova York, confira a cobertura completa dos cinco dias aqui.

Sobre o(a) Autor(a)

Isadora Gabriel
Isadora GabrielColunista Flash

Isadora Gabriel é CHRO da Flash. Formada pela PUC São Paulo e com MBA Executivo pelo IESE Business School de Barcelona, tem mais de 15 anos de experiência na área de Recursos Humanos. Já passou por empresas como Único, Movile, Amaro, Banco Safra, Bolsa de Valores, Itaú, Telefônica e Unilever. Em sua coluna mensal no blog da Flash, fala sobre tendências e futuro do trabalho.

LinkedIn
Compartilhe