Apenas 2 em cada 10 CEOs recomendariam o seu RH para outra empresa. Essa é uma das principais descobertas do estudo inédito "A Visão dos CEOs sobre o RH no Brasil", feito pelo Flash Humanidades em parceria com a FIA Business School.
Mas o que explica essa insatisfação? Em uma conversa mediada por Isadora Gabriel, CHRO da Flash, durante evento RH Summit 2026, Ricardo Salem, CEO da Flash, e André Fischer, professor e pesquisador de gestão estratégica de pessoas da FIA, buscaram responder justamente essa pergunta.
Origem do descompasso entre CEO e RH
Após ouvir 168 CEOs de todas as regiões do Brasil, a pesquisa apontou que os presidentes de empresas brasileiras deram uma nota baixa ao RH: ao serem questionados se recomendariam o profissional de RH para outra organização, o resultado foi um NPS (Net Promoter Score) de 7 pontos negativos.
"Embora polêmico, esse resultado não surpreende a mim que estou em salas de aula e consultorias de empresas há 40 anos discutindo gestão estratégica do RH", diz. E segue: "Na prática, esse conceito é como um alvo móvel que estamos permanentemente perseguindo. O que nosso estudo fez foi dar voz para que CEOs expressassem isso de maneira anônima", diz André Fischer.
Questionado sobre o que pode estar por trás do resultado, o professor explica: "Alguns CEOs não entendem que comportamento é estratégia. Quando entro em uma empresa, é o comportamento das pessoas que me faz ver que ela é diferente da concorrente. Se é assim, preciso de quem entende de pessoas discutindo o negócio. O que por vezes o profissional de RH não entende? Não entende de negócio."
Ricardo Salem acrescenta que é fundamental alinhar as discussões entre pessoas e desafios reais da companhia. "Ao discutir métricas de RH, é preciso discutir seus impactos no negócio, adequando o debate ao que o comitê executivo está discutindo.”
Para o executivo, é sintomático que 51% das empresas hoje no Brasil não tenham uma cadeira de RH no comitê executivo. "Nós CEOs temos de assumir nossa responsabilidade nesse desafio de anos. Muitos de nós colocam o RH como executor operacional, não como parceiro estratégico", afirma. "Eu não defino a estratégia organizacional sozinho. A Isadora [Gabriel, CHRO da Flash] é minha parceira de pensamento e reflexão para digerir os desafios que estão acontecendo no dia a dia de cada um dos times e traduzir isso em estratégia organizacional, com iniciativas e prioridades de trabalho."
Como RH pode agir para virar o jogo
Durante o debate, Isadora Gabriel, que lidera o time de RH na Flash, fez uma provocação importante. "A pergunta que nós temos de fazer todo dia é: 'O que eu fiz para destravar a performance hoje?'. Essa visão do RH responsável apenas pelo cuidado precisa mudar. Quando conectamos os desafios de pessoas com a conversa de um CEO, o cuidado puro vira uma parte que fazemos, mas não tudo", completa a CHRO.
Para André Fischer, da FIA, um passo importante é criar diálogos sobre as tensões naturais que existem entre CEO e CHRO. E isso precisa partir de quem ocupa a primeira cadeira da organização. "Não é uma questão de cascatear a estratégia para o RH, é sobre inclui-lo. Qualquer decisão relevante do meu negócio, preciso estar com alguém de recursos humanos do lado, porque só vou atingir os objetivos com gente. É razoável pensar isso."
De RH operacional à estratégico
De fato, o RH é um departamento que, tradicionalmente, gasta muita energia com tarefas operacionais, tanto que 90% dos profissionais da área dizem ocupar pelo menos duas horas de seu dia lidando com processos burocráticos, segundo a 4ª edição do Panorama da Saúde Emocional do RH, conduzido pelo núcleo de inteligência do Flash Humanidades.
Isso tira foco do realmente mexe o ponteiro no negócio: a estratégia. Para resolver esse gargalo, os CEOs enxergam na inteligência artificial uma ferramenta essencial para liberar o tempo do departamento de gestão pessoas, tanto que mais da metade (54%) dos presidentes promotores de seu RH esperam que a IA seja usada dentro do próprio time de recursos humanos.
Na visão de Ricardo Salem, CEO da Flash, esse dado reforça a visão de que a tecnologia precisa ser uma aliada para liberar tempo e ampliar a participação do RH nas conversas sobre o negócio. .webp?width=4128&height=2502&name=DSC00681%20(2).webp)
Da esq. para dir.: André Fischer, professor da FIA; Isadora Gabriel, CHRO da Flash; e Ricardo Salem, CEO da Flash, conversam em evento sobre os resultados do estudo "A Visão dos CEOs sobre o RH" (Foto: divulgação)
Competências que aproximam o RH da estratégia
Realizado em parceria com a FIA, o estudo utilizou como referência os nove perfis de competências do RH definidos por Dave Ulrich — e descobriu que as três competências mais importantes para o RH, na visão dos CEOs são:
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Ser Gestor de Dilemas;
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Estrategista de Negócio;
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Líder de Confiança.
Justamente o conjunto de qualidades que Ulrich sinaliza como essenciais para a área deixar de ser vista como operacional e ganhar relevância estratégica.
"Quando veio ao Flash Humanidades, em 2024, Dave reforçou que cuidar de pessoas é um meio para atingir os objetivos de negócio, não o fim. As habilidades desejadas em um profissional de RH, segundo nosso estudo, são justamente as que ajudam o comitê executivo a entregar resultados sem descuidar dos times", afirma Ricardo Salem.
A boa notícia é que 64% dos CEOs entrevistados afirmaram que seu RH é um Líder de Confiança (a competência mais bem avaliada). "Uma empresa hoje é um mar de contradições. E isso não vai acabar, vai acirrar. Ser um líder de confiança, algo nuclear no profissional de recursos humanos, é fundamental nessa era de paradoxos", diz o professor da FIA André Fischer, que fez um apelo ao fechar a fala.
"Não vamos crucificar o RH; e também não vamos crucificar o CEO." Na visão dele, ser um RH estratégico não depende apenas da área de pessoas, mas também da disposição em trazê-la para as discussões do negócio.
Salem complementa: "Se você é um RH que não está sendo envolvido nas questões de negócio, aproxime-se do CEO. E, se você é um CEO que não está puxando seu RH para essa discussão, faça isso."





