Existe uma configuração de Recursos Humanos bastante familiar nas empresas brasileiras que ganhou um nome quase autoexplicativo: a EUquipe de RH. Ela traduz um cenário conhecido de muitos profissionais da área: uma única pessoa é a responsável por demandas como recrutamento, folha, benefícios, clima, conflitos, entre outras atividades que ocupam uma lista cada vez. A expressão traduz com algum humor uma realidade conhecida por quem trabalha na área, mas quando observada menos como anedota e mais como decisão empresarial, ajuda a justificar uma questão bem maior do que a sobrecarga de um profissional.
Apesar de a imagem dominante do RH ainda ser construída a partir das grandes organizações, que possuem estruturas maiores de gestão de pessoas, com áreas especializadas, a estrutura da maior parte das empresas brasileiras aponta para outra direção. Quanto menor a companhia, maiores as chances de um mesmo profissional de RH ser o responsável por todas as funções citadas e mais algumas.
A 4ª edição do "Panorama da Saúde Emocional do RH", estudo realizado pelo Flash Humanidades em parceria com o RH Summit, transforma essa percepção em dado. O estudo mostra que 6 em cada dez profissionais de RH atuam sozinhos ou em times de até cinco pessoas. Entre os 1.016 profissionais entrevistados, 17% afirmam ser a única pessoa responsável pelo RH da empresa. Outros 30% trabalham em equipes de apenas duas ou três pessoas e 14% contam com quatro ou cinco profissionais na área, o que significa que seis em cada dez RHs atuam sozinhos ou em times de até cinco pessoas.
O porte da empresa ajuda a explicar como essa estrutura evolui: nas organizações com até 50 colaboradores, quase metade dos profissionais de RH trabalha sozinha, acumulando praticamente todas as atividades da área. Notamos uma mudança de perfil nas companhias que possuem entre 201 e 500 funcionários e o movimento se consolida na faixa de 501 a 1.000, quando equipes maiores ganham espaço e surgem mais cadeiras especializadas. Até chegar nesse patamar, portanto, a organização consegue multiplicar o número de pessoas que emprega sem realizar um movimento proporcional na estrutura encarregada de contratar, desenvolver, remunerar, organizar e apoiar essas mesmas pessoas.
Quando a complexidade chega antes da estrutura
Apesar de ser uma realidade conhecida nas pequenas empresas, que são a maior parte no Brasil, percebo que EUquipe nem sempre é uma característica isolada dessas companhias. Hoje vejo um padrão mais profundo: muitas organizações crescem, aumentando o número de funcionários, processos, obrigações, riscos e expectativas, sem antes ampliar a infraestrutura responsável por administrá-los.
Para mim, essa defasagem sobrevive porque contratar outro profissional de RH tem um custo imediatamente identificável no orçamento, com o pagamento de salário e encargos. No entanto, ao deixar de abrir vagas para a área, existe um custo invisível que aparece fragmentado pela operação: processos mais lentos, gestores absorvendo tarefas de pessoas, vagas abertas por mais tempo, decisões adiadas, projetos que não saem do papel, horas adicionais de trabalho e uma capacidade menor de antecipar problemas.
A empresa enxerga com precisão o custo do próximo profissional de RH, mas raramente calcula o impacto financeiro de continuar crescendo sem ele.
A eficiência que depende de alguém absorver a diferença
Times pequenos podem ser eficientes, assim como estruturas grandes podem ser improdutivas. Uma pessoa pode atender 100, 150 ou 200 funcionários durante bastante tempo, com a manutenção de processos, mas usar a continuidade da operação como medida de eficiência não deveria ser uma métrica, já que, para garantir que o básico continue acontecendo, muitas vezes é preciso deixar de lado passos estratégicos.
Segundo dados do Panorama da Saúde Emocional do RH, 72% dos profissionais de RH trabalham além do horário contratado todas as semanas, e 17% fazem entre cinco e dez horas extras semanais. Esse cenário mostra que não estamos falando apenas de profissionais que dizem que têm trabalho demais, mas de uma área que precisa lidar com novas expectativas sem receber, na mesma proporção, recursos, tempo, autonomia ou estrutura para atendê-las.
A EUquipe sustenta esse arranjo porque alguém absorve pessoalmente a diferença entre o que a organização exige e aquilo que decidiu financiar. Na prática, é alguém que está priorizando urgências, improvisando, estendendo a jornada e abandonando o que pode esperar. O que normalmente desaparece primeiro não é a folha nem a admissão, mas o desenvolvimento, prevenção, análise, sucessão, desenho organizacional e planejamento, curiosamente as mesmas atividades que entram nos discursos sobre a necessidade de um RH mais estratégico.
A EUquipe parece eficiente enquanto conseguimos medir aquilo que ela entrega; a distorção aparece quando começamos a medir tudo aquilo que ela deixou de construir para continuar entregando.
Afinal, quantas pessoas um profissional de RH suporta?
Não existe uma regra que defina quantos profissionais de RH uma empresa deve ter. Uma indústria com alta rotatividade, múltiplas unidades e grande contingente operacional, por exemplo, exige uma estrutura diferente de uma empresa de tecnologia com processos automatizados. Outros aspectos que alteram radicalmente o cenário são: terceirização, legislação, maturidade dos gestores e sistemas disponíveis. Ainda assim, benchmarks ajudam a entender a ordem de grandeza e, principalmente, a colocar em perspectiva determinadas escolhas empresariais.
O levantamento de benchmarking da SHRM (Sociedade para Gestão de Recursos Humanos, em português) encontrou, em 2025, uma média de 2 profissionais de RH para cada 100 empregados, o equivalente a aproximadamente um profissional para cada 50 pessoas. Já uma análise do ADP Research Institute, baseada em dados de mais de 25 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos, mostrou que, quanto menor o número de profissionais de RH na companhia, maior o turnover que ela registra.
Segundo o estudo, as empresas que possuem um RH a cada 200 colaboradores tem um turnover médio médio de 5,8% nas organizações. A taxa cai para 4,5% nas companhias que tem entre 2,5 a 3,49 profissionais por 100 empregados. Nenhum desses números deveria virar uma fórmula importada para dimensionar departamentos de RH no Brasil, porque empresas possuem modelos, riscos e necessidades diferentes, mas eles ajudam a desmontar uma crença bastante conveniente: a de que fazer uma pessoa atender centenas de funcionários constitui, por definição, eficiência. Isto pode funcionar em determinados contextos, enquanto em outros significa apenas que custos que apareceriam no orçamento foram transferidos para horas adicionais, prioridades abandonadas, gestores menos apoiados e uma capacidade menor de antecipar problemas.
A pergunta “quantas pessoas um profissional de RH suporta?” acaba sendo menos interessante do que parece, porque colaboradores conseguem suportar cargas extraordinárias durante períodos surpreendentemente longos, e organizações conseguem operar durante anos com estruturas menores do que sua complexidade recomendaria. A discussão relevante começa quando a empresa deixa de perguntar até onde aquela pessoa consegue ir e passa a perguntar qual infraestrutura de gestão precisa construir para sustentar o negócio que pretende se tornar, afinal, o maior risco da EUquipe não é o RH deixar de dar conta, é a empresa descobrir tarde demais que cresceu mais rápido do que sua capacidade de ser gerida.
Sobre o(a) Autor(a)

Diretor e curador do RH Summit, é palestrante e atua como professor da pós-graduação da PUCPR Digital
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