Na era da Inteligência Artificial (IA), a leitura está passando por uma transformação radical. No SXSW 2025, John Kaag, professor de filosofia na Universidade de Massachusetts Lowell e cofundador da Rebind Publishing, abordou como a IA pode revolucionar o ato de ler — não apenas gerando textos, mas personalizando e mediando interações entre leitores e obras.

A palestra, intitulada From Gutenberg to GPT: AI + The Future of Reading (De Guttenberg ao GPT: IA e o futuro da leitura, em português), trouxe uma provocação fundamental: a IA será uma ameaça à literatura ou poderá salvá-la? Revisitando referências clássicas e explorando aplicações educacionais, Kaag argumentou que a tecnologia pode democratizar o conhecimento e enriquecer a leitura, desde que usada de forma responsável.

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“Momento Gutenberg” da IA

Kaag iniciou sua fala comparando a ascensão da IA ao impacto da prensa de Gutenberg. Assim como a invenção do século XV tornou os livros mais acessíveis, a IA poderia representar um novo salto na disseminação do conhecimento. Porém, para o professor, a grande revolução não está em apenas gerar novos textos, mas em sua capacidade de curadoria.

A leitura, segundo ele, nem sempre foi um processo passivo. O texto escrito é visto como algo “morto” por não interagir com o leitor da mesma forma que a fala. A IA, no entanto, pode reverter essa limitação, permitindo que as obras conversem com quem as acessa.

IA como solução

Outro ponto levantado foi a crise da leitura atenta, ou deep reading, essencial para o pensamento crítico. Segundo Kaag, cerca de 52% dos americanos têm dificuldades para concluir livros inteiros — um reflexo da cultura imediatista e fragmentada das redes sociais. Essa superficialidade prejudica habilidades como empatia e reflexão aprofundada.

A falta de pensamento crítico, de leitura atenta, e a polarização da nossa cultura são problemas atuais, para Kaag. “Basicamente, temos um déficit de leitura. Somos inundados de textos o tempo todo, mas não estamos realmente fazendo uma leitura aprofundada”, afirma.

Para ele, a IA pode contrabalançar essa tendência, fornecendo uma tutoria interativa e insights que tornam o processo mais envolvente. Kaag contou que, quando tinha 14 anos, não conseguia ler um livro inteiro e, sua mãe, percebendo o que estava acontecendo, passou a ler um livro junto com o filho, destacando partes importantes e sendo um apoio no processo de leitura.

Kaag afirma que uma tutoria personalizada melhora drasticamente o aprendizado — algo que hoje só é possível para poucos. “Por isso que a IA é tão promissora, porque ela nos permite escalar uma coisa que não é escalável, que é simular uma interação humana e com paciência”, afirma o professor.

Neste contexto, Kaag criou, em parceria com um colega, uma proposta de “companheiro de leitura” movido por IA. Pegg convidou Kaag para ser seu tutor em uma leitura e, ao final, convidou Kaag para criar a IA. A ferramenta integraria modelos como o ChatGPT a arquivos digitais, possibilitando análises interativas direto no texto.

Com essa tecnologia, leitores poderiam receber perguntas personalizadas, sugestões de interpretação e até mesmo debates embasados para explorar novos ângulos de um livro. “Recursos de IA podem escalar a experiência de tutoria individualizada”, destacou Kaag, tornando o aprendizado mais acessível e participativo.

Desafios éticos e técnicos

Apesar do otimismo, Kaag reconheceu desafios na implementação dessas ferramentas. Um dos principais é garantir que os textos curados pela IA ofereçam insights relevantes e personalização genuína.

Outro desafio é garantir transparência e responsabilidade no uso da IA. Como garantir a compensação justa dos autores? Como verificar a veracidade das informações geradas automaticamente? Como moderar diálogos gerados por máquinas sem comprometer a liberdade de expressão? Esses são questionamentos urgentes nesse novo cenário.

Ainda assim, Kaag enfatizou que a IA ajuda, mas não substitui o conteúdo original. “Enquanto a IA serve para fazer curadoria e distribuir originais, acho que o conteúdo vai continuar sendo soberano por um longo período, talvez para sempre, especialmente quando o assunto é a leitura”, afirma Kaag.

Ele a vê como uma ferramenta para “curar e distribuir” conhecimento, organizando trechos relevantes, moderando discussões em comunidades de leitura e até mesmo conectando leitores com perspectivas diferentes para enriquecer debates.

Por meio de anotações compartilhadas e discussões interativas, leitores poderiam trocar impressões e insights sobre uma mesma obra. Essa abordagem “descentralizada” da leitura poderia estimular novas formas de engajamento com textos clássicos e contemporâneos.

Assista ao vídeo sobre a cobertura do SXSW 2025:

 

Juliana Cordaro, em Austin
Juliana Cordaro, em Austin

É videomaker sênior na Flash. Formada em audiovisual pelo Senac São Paulo e certificada em fotografia pela New York Film Academy, tem experiência em desenvolvimento de identidade visual, fotografia, design, animação e edição de vídeos, com passagens por empresas como Liv Up e b12 filmes.

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