Entre perneiras, colete, cotoveleiras, máscara, luvas e patins, o equipamento completo que uma goleira usa em uma partida de hóquei de patins pesa cerca de 20 quilos. E a jogadora que está dentro dele precisa estar preparada para defender o puck, uma bola de plástico que, vindo do ataque de um atleta profissional, pode chegar a 136 quilômetros por hora.
Nada disso assustou Catia Senssulini Alonso, 39 anos, diretora de transformação de RH do Grupo OLX, quando, há oito anos, se ofereceu para ser goleira do time amador no qual o marido, Alex, jogava. A posição provisória deu tão certo que, hoje, Catia é uma das goleiras do time sênior da seleção brasileira de hóquei de patins e, em outubro, participou do World Skate Games, em Assunção, no Paraguai.

Na foto, Catia ocupa a posição de goleira no World Skate Games em outubro deste ano.
O evento, que já foi chamado de Roller Games, é o maior encontro multiesportivo de esportes sobre rodas do mundo e reuniu mais de 10 mil atletas de mais de 100 países, disputando 154 títulos mundiais. “Conhecimento e desafio é o que me move. Sempre foi”, afirma a executiva ao analisar sua trajetória.
Catia é a segunda RH da qual fizemos um perfil para a seção “RH Fora da Curva”, do Flash Humanidades. No texto de estreia, trouxemos a história de Rodrigo Souto, diretor de RH da IBM. O núcleo de inteligência do trabalho da Flash tem como objetivo debater os desafios presentes e futuros do mundo do trabalho, reunindo diferentes vozes, pensamentos e visões sobre a relação entre humanos e tecnologia.
Da bolsa de inglês na escola pública à porta da IBM
Desde criança, Catia é o tipo de pessoa que não perde oportunidades. Filha de um supervisor de fábrica e de uma vendedora que também trabalhou com telemarketing, por ser uma boa aluna, a estudante da escola pública de Campinas ganhou uma bolsa para estudar inglês no Ensino Fundamental, oportunidade que foi decisiva em sua trajetória profissional.
Foi esse inglês que abriu as portas da IBM quando ela tinha 21 anos e fazia faculdade de Farmácia. A multinacional estava à procura de candidatos com determinado nível de inglês na região, e mesmo achando que o seu conhecimento da língua não seria suficiente, decidiu tentar.
Além da descrença no próprio potencial, a entrevista de emprego aconteceu em um dos piores momentos possíveis: sua mãe estava passando por uma cirurgia muito complexa no cérebro, momento que afetava a família inteira. Apesar da situação, o pai a levou até Hortolândia para participar do processo seletivo, e depois voltou para o hospital. Catia se lembra de chegar para falar com a recrutadora meio cabisbaixa, mas de sair com duas boas notícias: fora contratada e a cirurgia da mãe tinha corrido muito bem.
Quinze anos de desafios dentro da IBM
A princípio, sua ideia era ficar na IBM só até se formar (afinal, ela fazia Farmácia). Mas os planos logo mudaram. Em três anos Catia já era supervisora, e acabou ficando 15 anos na gigante de tecnologia, onde passou por setores de faturamento, finanças, BPO, folha de pagamento, remuneração para a América Latina e recrutamento. Sempre chegando em processos em crise e saindo com os indicadores no verde.
Um dos momentos mais emblemáticos dessa trajetória, ela conta, foi quando assumiu um contrato da Unilever que estava prestes a acabar. Eram 200 pessoas, SLAs (Service Level Agreement ou em português algo como Acordo de Nível de Serviço) todos vermelhos, cliente insatisfeito. Em vez de gerir a saída em silêncio, Catia fez o oposto: reuniu o time, contou o que estava acontecendo, estabeleceu um plano de realocação para cada pessoa dentro da IBM e entregou o projeto no prazo e no verde. O cliente gostou tanto que fez convite para ela ir trabalhar lá, mas ela preferiu ficar.
A cada novo desafio dentro da empresa, o movimento era o mesmo: "Topa?" "Topo." Na cabeça dela, oportunidade e conforto raramente coexistem.
Essa lógica também guiou uma das decisões mais importantes da carreira. Depois de 15 anos na IBM, aceitou o convite para ir para a Cognizant, multinacional americana de tecnologia da informação, consultoria e transformação digital. Na ocasião, a filha tinha um ano e meio e ela ainda amamentava de madrugada.
Um ex-chefe, bem-intencionado, perguntou se ela tinha certeza daquele passo considerando "o seu momento de vida", mas, para Catia, permanecer significava abrir mão do crescimento profissional. Como já não via novos desafios na empresa onde construiu boa parte da carreira, decidiu seguir em frente.
Maternidade, terapia e resiliência física
A maternidade foi uma decisão muito pensada, como tudo o que Catia faz. Antes de decidir que realmente queria ser mãe, ela pesquisou, conversou com mulheres do seu círculo, mapeou prós e contras, entendeu quando cada uma soube que queria ser mãe. Só depois de ponderar tudo isso é que decidiu encarar essa tarefa. Mas ser mãe desafia seu pragmatismo, e ela parece gostar disso. "Eu não tenho as respostas. Não sei se A mais B vai dar C." Ali a bússola, diz, é mais simples: amor.
Caótica otimista, como se define, a executiva faz terapia desde que engravidou e diz que o processo não é sobre resolver traumas, mas sobre entender como o próprio cérebro funciona. "Você sabe como vai reagir a determinado estímulo. Como aproveita isso da melhor maneira nos ambientes em que está, seja na maternidade, no casamento, no trabalho ou no esporte".
A forma como encarou os últimos meses também diz muito sobre isso e sobre quem ela é. Em fevereiro deste ano, Catia disputou um campeonato de hóquei, na Califórnia. Dois meses depois, precisou enfrentar uma sequência de cirurgias: uma reconstrução de mama e, poucas semanas mais tarde, uma histerectomia.
A recuperação foi tão rápida que surpreendeu até a equipe médica, que atribuiu parte da evolução ao condicionamento físico que ela construiu ao longo de anos de esporte. Em junho, já havia retomado o trabalho, a terapia, os treinos e a rotina de estudos. Em outubro, defendeu a seleção brasileira.
Leia também: O que aprendemos sobre gestão de pessoas na fazenda de cacau da Dengo, em Ilhéus
Seu papel na transformação de RH na OLX
Talvez por isso a cadeira que ocupa hoje pareça feita sob medida para ela. Depois de passar por finanças, operações, remuneração, recrutamento e desenvolvimento de pessoas, Catia encontrou na OLX uma função que reúne quase tudo o que construiu ao longo da trajetória. À frente da transformação de RH, lidera iniciativas que combinam tecnologia, dados, processos e gestão de pessoas, justamente na área em que acredita que os maiores desafios ainda estão por vir.
Não por acaso, sua obsessão do momento é a inteligência artificial. Há mais de um ano faz cursos, testa ferramentas e experimenta novas aplicações. Muito além das tendências, a tecnologia virou quase um hábito porque ela acredita que quem trabalha com gente precisa entender as ferramentas antes de ajudar outras pessoas a conviver com elas.
"A tecnologia evolui numa velocidade exponencial, mas nós ainda somos analógicos", diz. "O ser humano não evolui na velocidade da tecnologia. Então, o que a gente tem que gerir é o sofrimento das pessoas diante de uma mudança muito rápida." Para ela, o desafio não é competir com a inteligência artificial, mas ajudar as pessoas a reaprender continuamente.
Essa crença também orienta sua forma de liderar: uma combinação de "mentalidade de crescimento e liderança positiva". Nos feedbacks que recebe da equipe, porém, a palavra que mais aparece é outra: acessível. Isso porque Catia não acredita em hierarquia como sinônimo de distância. "Eu estou aqui para destravar problemas. Quero que me vejam como uma facilitadora."
A transparência, admite, já lhe trouxe problemas. Com o tempo, aprendeu a escolher melhor o momento, o fórum e a forma de dizer as coisas. O que nunca negociou foram os próprios princípios. "Se o ambiente é obscuro, se as regras não são claras, eu não consigo trabalhar bem."
Talvez seja por isso que a posição de goleira lhe caia tão bem. No hóquei, o puck pode ultrapassar os 130 quilômetros por hora antes de chegar ao gol. Na carreira, os desafios também costumam vir em alta velocidade. Em ambos os casos, Catia Alonso parece ter desenvolvido o mesmo reflexo: entender rapidamente o que está diante dela, manter a posição e, sem medo, seguir em frente.
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Ana Paula Sousa é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em Gestão de Imagem e Branding pela Universidade Anhembi Morumbi. Atua há mais de 20 anos na área de comunicação, com passagens por redações de jornais como Folha de S.Paulo e de revistas das editoras Abril e Globo. É especialista em estratégia de conteúdo, SEO e branding, com certificações em copywriting, storytelling e UX writing.




