Bulbos de tulipas, moinhos de vento em miniatura e tamancos de madeira decorados costumam ser os souvenirs clássicos de quem volta de uma viagem de turismo a Amsterdã. Mas, em vez dos objetos óbvios da cidade, Rodrigo Souto, diretor de RH da IBM, desembarcou no Brasil com um jogo de panelas na bagagem.
A escolha curiosa diz muito sobre esse carioca de 51 anos. Apaixonado por gastronomia, Rodrigo cozinha da mesma maneira como vive: com entusiasmo e curiosidade. Para ele, a comida é uma forma de entender culturas, criar memórias afetivas e se aproximar das pessoas. O fogão funciona como uma extensão precisa de sua personalidade detalhista, calorosa e incapaz de permanecer muito tempo no automático.
Rodrigo é o primeiro entrevistado da seção fixa que teremos no Flash Humanidades. Intitulada “RH Fora da Curva”, mensalmente vamos trazer histórias e perfis inspiradores de profissionais da área de gestão de pessoas.
Nascido na Zona Norte do Rio de Janeiro, casado há duas décadas com Renata e há 30 anos na IBM, ele é o tipo de pessoa que ainda acredita em vínculos locais e duradouros. “Sou uma pessoa monogâmica”, brinca. “Uma esposa, uma filha, 30 anos na mesma empresa. Costumo ter relações de longo prazo com aquilo que eu gosto”, afirma o executivo, que faz uma pausa e acrescenta, como se isso ajudasse a explicar tudo: “Sou virginiano.”
Mas qualquer tentativa de resumir Rodrigo a alguma previsibilidade astrológica fracassa rapidamente diante da forma como ele conduz o diálogo. Ao contrário da fama metódica atribuída a virginianos, e ao ascendente, também em Virgem, segundo um mapa astral que já fez, ele costura assuntos improváveis com naturalidade, ligando inteligência artificial a mindfulness, NBA a liderança, Steven Spielberg à criação de filhos.
Tanto que, em determinado momento da conversa, ri ao lembrar do apelido que ganhou na IBM: “Guia dos curiosos”. Não é preciso muito tempo de conversa para entender que essa alcunha faz todo o sentido. Dono de um repertório vasto, ele transita por todos esses temas com uma leveza rara e longe de qualquer pedantismo.
Educação como base
Filho de uma ex-bancária que deixou o trabalho para cuidar dos filhos e de um vendedor que, segundo ele, “venderia areia no deserto”, Rodrigo e a irmã, que é microbiologista e vive em Edmonton, no Canadá, aprenderam com os pais a não abrir mão da educação.
O pai teve uma copiadora ao lado de uma universidade em uma época em que estudantes lotavam lojas de xerox carregando apostilas. Embora tivessem passado por momentos financeiramente difíceis, os estudos sempre foram prioridade.
Herdou do pai esse princípio que replica com a filha, Alice, de 14 anos, e o costume de sempre andar com dinheiro em espécie, mesmo na era do Pix.
Mas a herança mais valiosa que o pai deixou está nas arquibancadas do Maracanã. Ele tinha oito anos quando começou a ser levado aos jogos do Vasco. Lembra do estádio, da arquibancada e, principalmente, do cachorro-quente da Genial, ainda hoje marca registrada do templo do futebol carioca.
Décadas depois, decidiu repetir a experiência com Alice. "Ela adorou e pediu para voltar", conta, sorrindo. "Para mim, foi importante. Uma lembrança que eu tenho e repliquei com ela."
Esporte e vulnerabilidade
Assim como o futebol, o basquete ocupa um espaço importante na vida dele. Torcedor do Detroit Pistons e fã da NBA desde os tempos de Jordan, Rodrigo vê no esporte quase uma filosofia prática sobre disciplina e crescimento.
Em casa, reuniu para a filha um manifesto inspirado no ex-jogador: as “leis do Michael Jordan”, uma coleção de pensamentos sobre erro, treino e persistência. “Essa geração, às vezes, não quer errar. Então juntei aquelas frases dele sobre quantos arremessos perdeu antes de acertar.”
Apaixonado por videogame, ele faz questão de lembrar que nunca foi exatamente brilhante nos esportes. No futebol, era zagueiro. “Me botavam na frente para atrapalhar menos.” Na natação, chegou perto de ser federado, mas achou que o tempo que teria que se dedicar ao esporte seria demais. “Sempre fui ruim em tudo”, brinca.
A frase vem acompanhada de uma risada, mas revela um traço marcante: a facilidade com que o executivo fala das próprias vulnerabilidades. Embora pertença a uma geração treinada para transmitir segurança o tempo inteiro, ele parece genuinamente confortável em não ocupar o papel de quem tem todas as respostas.
Presente em tudo o que faz
Talvez por isso também trate da ansiedade sem qualquer constrangimento. Apesar da aparência calma, Rodrigo se define como alguém profundamente ansioso. Diariamente, acorda às seis da manhã para a musculação, sem música, tentando prestar atenção no corpo e nos sons da academia. Corre aos fins de semana no Ibirapuera ou no Minhocão ouvindo Calvin Harris e música eletrônica.
Além de focar na rotina física, também pratica mindfulness diariamente para tentar permanecer presente. “Eu estou escovando os dentes e pensando em outra coisa. Então eu me forço a prestar atenção nos movimentos, no barulho da escova. Parece simples. Não é.”

Foto: Juliana Cordaro
Uma visão de liderança
Dos últimos 12 anos, Rodrigo passou seis vivendo fora do Brasil: primeiro morou de 2014 a 2017 em Dubai; depois, até 2020, em Singapura. Experiências que descreve como exercícios forçados de humildade cultural. “Você aprende que a sua verdade não é a verdade dos outros”, resume.
Não à toa, essa é uma frase que representa muito da sua visão sobre liderança. Em maio de 1996, ele entrou na IBM quase por acidente. Vinha de um estágio no Banco do Brasil e tinha certeza de que jamais trabalharia com Recursos Humanos, porque considerava as disciplinas de RH na faculdade profundamente burocráticas e entediantes. Mas ele percebeu rapidamente que o RH praticado ali era muito diferente do ambiente acadêmico.
Em três décadas na empresa, viu a IBM migrar do hardware para software, consultoria, cloud e inteligência artificial e, de quebra, acompanhou a área de gestão deixar de ser operacional para se tornar analítica.
Detalhe: a empresa já usava people analytics há mais de 20 anos e trabalhava com IA aplicada ao setor muito antes de o tema virar tendência global. “A gente mudou várias vezes sem precisar trocar de CNPJ”, diz. “Quando entrei, só três pessoas no RH tinham Excel. O resto trabalhava em monitor de fósforo verde ligado no mainframe.”
Num momento em que executivos são obcecados por produtividade, Rodrigo insiste em outro conceito: “O recurso mais escasso hoje não é o tempo. É a atenção.” Depois de ler sobre a chamada “economia da atenção”, incorporou a ideia à própria gestão.
A presença precisa ser real
Sua preocupação tem um alvo específico: a tendência crescente de terceirizar para a inteligência artificial conversas que deveriam ser genuinamente humanas. “A gente deixa de ter diálogos difíceis, mas importantes, e terceiriza para uma IA que só valida o que você quer ouvir.”
O Brasil ajuda a dar urgência ao tema, com o número de afastamentos por esgotamento profissional crescendo ano após ano.
Para Rodrigo, parte desse cenário nasce justamente de líderes distraídos: pessoas olhando para cinco telas ao mesmo tempo enquanto fingem escutar os outros. “Você via que os gestores do passado investiam tempo em você”, diz, lembrando dos primeiros chefes que teve no Banco do Brasil e na IBM. “Não é que fossem melhores. É que tinham menos fatores de descarrilhamento. Menos coisas roubando a atenção.”
Essa busca por uma presença real se estende para fora do escritório. Há alguns meses, ele voltou do SXSW, em Austin, entusiasmado após assistir a uma palestra de Steven Spielberg, cineasta que ocupa um lugar especial na sua memória afetiva desde a infância. Chegou em casa contando tudo para Alice, e a resposta veio imediata: “Pai, quem é Steven Spielberg?”
Mais que depressa, organizou sessões improvisadas para apresentar os clássicos do diretor à adolescente. Como “E.T” ela já tinha visto, entraram na maratona de “Tubarão” e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau". “Meu trabalho como pai é fazer com que ela tenha boas lembranças minhas.”
Para o executivo que passa o dia imerso no futuro da tecnologia, o desafio mais complexo e urgente ainda se resolve de forma analógica: na atenção absoluta dedicada a quem está por perto, seja no sofá de casa ou na sala de reuniões.

Ana Paula Sousa é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em Gestão de Imagem e Branding pela Universidade Anhembi Morumbi. Atua há mais de 20 anos na área de comunicação, com passagens por redações de jornais como Folha de S.Paulo e de revistas das editoras Abril e Globo. É especialista em estratégia de conteúdo, SEO e branding, com certificações em copywriting, storytelling e UX writing.




