Toda semana, mais de mil líderes de RH espalhados pelo Brasil abrem o aplicativo de uma plataforma de saúde para registrar um treino ou uma caminhada. Depois, seguem para grupos fechados de WhatsApp para falar sobre assuntos do dia a dia corporativo ou se encontram, presencialmente, em “treinões” organizados pela comunidade.
O esporte é o ponto de partida para unir pessoas e impulsionar o desenvolvimento de quem participa da RH Modo Atleta, uma das comunidades voltadas a gestores de pessoas que reúnem hoje CHROs, diretores, gerentes e coordenadores de RH de grandes companhias brasileiras, como Itaú, Heineken, Fleury e Localiza.
Esta é uma das muitas comunidades voltadas a profissionais de gestão de pessoas que têm ganhado força pelo Brasil. Diferentemente dos tradicionais grupos de networking, esses funcionam como ambientes permanentes de troca, em que profissionais debatem os desafios cotidianos da profissão, validam conhecimento e compartilham aprendizados construídos na prática.
“O conhecimento que orienta as práticas em gestão de pessoas é muito dinâmico. Por meio das plataformas digitais, a troca de experiências nas comunidades se torna uma forma de aprendizado rápido e contínuo, contribuindo diretamente para o desenvolvimento da carreira”, afirma Luiz Vagner Raghi, professor do curso de administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que integra comunidades de RH há décadas.
Nesse contexto, o que fazer parte de uma comunidade significa na prática? Para o professor, muitos profissionais acabam encontrando respostas para desafios atuais antes que eles apareçam em livros, pesquisas acadêmicas ou cursos de atualização. Segundo ele, esse processo acelera não apenas o aprendizado, mas também a formação de competências cada vez mais exigidas para as lideranças e em constante transformação.
Essa construção coletiva é o que diferencia uma comunidade de um grupo de networking. “As comunidades de RH vão além do networking, pois se comunicam, se reúnem, celebram ocasiões especiais e fazem o acolhimento dos membros, inclusive ajudando em processos de recolocação profissional.”
Conexões reais para gerar confiança
Se a IA encurtou o caminho até a informação, as comunidades vêm preenchendo uma lacuna que a tecnologia não consegue ocupar: a da confiança. De acordo com os especialistas ouvidos, esses espaços criam um ambiente de segurança psicológica em que profissionais compartilham experiências, discutem erros, validam decisões e constroem soluções de forma colaborativa.
“A IA nos dá a informação, mas a comunidade nos dá o contexto, o julgamento e o apoio emocional. O valor está em poder ligar para alguém que você confia e ouvir: ‘Eu passei exatamente por essa situação na semana passada, e resolvi desse jeito’. Isso nenhuma tecnologia vai conseguir substituir”, explica Pedro Reis, fundador da plataforma VIK e membro do conselho do RH Modo Atleta, que coloca a saúde das lideranças no centro da discussão.
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Como funciona uma comunidade de RH
O desenho varia de uma comunidade para outra, mas costuma seguir um padrão: parte da troca acontece de forma presencial —em “treinões”, encontros e eventos— e parte de forma remota, em grupos fechados de WhatsApp, masterclasses on-line e aplicativos próprios.
No caso do RH Modo Atleta, há uma seleção dos participantes: quem quer participar preenche uma pré-inscrição, passa por um processo de curadoria e, se aprovado, tem uma conversa individual de onboarding com uma “community host” antes de começar a acessar os rituais da comunidade.
O critério de seleção prioriza coordenadores, gerentes, diretores e VPs de RH de empresas com mais de 200 colaboradores, mas a participação é gratuita.
Dentro, os membros não se encontram todos ao mesmo tempo em um único lugar. A comunidade funciona em rede, com desafios e discussões que rodam o ano inteiro entre os canais digitais, e momentos presenciais mais pontuais.
Os números do programa dão uma dimensão do engajamento: mais de 17 mil atividades físicas já foram registradas pelos membros, com taxa de engajamento de 73% no aplicativo e mais de 400 prêmios resgatados na loja da comunidade.
“Grupo de networking para trocar cartão e falar de teoria de RH temos vários. O RH Modo Atleta é diferente porque a gente faz junto. É um ecossistema prático”, explica Pedro.
Comunidade apoia executivos em decisões estratégicas
O grupo apoia os membros na tomada de decisões estratégicas baseadas em dados reais, com webinars, mentorias direcionadas, eventos presenciais e suporte na adoção de ferramentas de People Analytics —como o VIK Score, que mapeia a saúde física e mental dos colaboradores— e da Calculadora de ROI, usada para estruturar planejamentos alinhados aos objetivos de negócio.
“O maior erro do RH ao falar de bem-estar é usar uma linguagem ‘romântica’ com quem decide o orçamento. O CFO e o CEO querem ver números, retorno sobre investimento, redução de absenteísmo e controle de custos. Assim, capacitamos as lideranças de RH a elaborar cases de sucesso que comprovem o retorno financeiro do investimento em pessoas, traduzido em ganho de eficiência operacional e diminuição de custos”, detalha Pedro.
Grupos também ajudam a enfrentar a solidão da liderança
Pedro também acredita que as comunidades ajudam a enfrentar um problema comum entre executivos: a solidão da liderança. “Em vez de tentar reinventar a roda sozinho toda vez que surge um problema, o profissional acessa a inteligência coletiva de centenas de outros diretores.”
Os números da 3ª edição do Engaja S/A, pesquisa conduzida pelo Flash Humanidades em parceria com a FGV-EAESP, dão peso a essa percepção da comunidade. O levantamento identificou uma “crise silenciosa” na alta liderança: apesar de ser o grupo mais engajado do país, foi o que mais perdeu engajamento, com queda de sete pontos percentuais entre 2024 e 2025.
Entre executivos e gestores intermediários, 78% relatam algum nível de ansiedade e 74% dizem sentir fadiga com frequência —e o próprio estudo aponta que práticas de desenvolvimento profissional estão associadas a uma redução de até 25% na frequência de sintomas negativos de saúde mental, entre eles justamente a solidão.
Para quem busca espaços de troca e desenvolvimento profissional, há diferentes comunidades e iniciativas voltadas a lideranças e profissionais de RH:
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Delas pra Elas: programa gratuito de mentoria executiva do Instituto Vasselo Goldoni que fortalece o desenvolvimento e a liderança de mulheres em posições estratégicas de RH.
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Flash Humanidades: a comunidade da Flash promove eventos e debates sobre o mundo do trabalho e a gestão de pessoas. Interessados podem se cadastrar para receber informações sobre as próximas iniciativas pela agenda de eventos.
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Gestão RH: criado em 1991, é pioneiro no segmento de desenvolvimento de profissionais de RH. Com mais de 400 patrocinadores e associados, esse ecossistema de gestão de pessoas promove eventos, encontros e iniciativas de reconhecimento que conectam lideranças de RH e negócios para discutir tendências e compartilhar experiências.
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Koru: a empresa de desenvolvimento de pessoas e negócios fundada em 2022 por três executivos mantém comunidades de aprendizagem e networking, como a Papo de Gente, que reúne mais de 3 mil lideranças de RH para trocar experiências sobre liderança, cultura, inteligência artificial e transformação organizacional.
Conexões para fortalecer o protagonismo das lideranças de RH
Lançada em fevereiro de 2025, durante o planejamento das comemorações dos dez anos da Share People Hub, uma plataforma de soluções em gestão de RH, a Humanship nasceu com o propósito de contribuir para a construção de futuros do trabalho. Hoje, reúne 270 membros, em sua maioria executivos que ocupam as posições de número um ou dois na área de Recursos Humanos de grandes empresas.
A comunidade aposta em encontros presenciais, como conferências, imersões, jornadas, talks e jantares, para promover a troca de experiências e o acesso a conteúdos estratégicos. A programação também inclui viagens a festivais e centros de referência em tendências globais, como o SXSW, combinando referências internacionais com iniciativas inovadoras desenvolvidas no Brasil.
Para Luiz Eduardo Drouet, fundador da Humanship e da Share People Hub, a proposta responde a uma necessidade das lideranças de RH: encontrar espaços para compartilhar experiências com profissionais que enfrentam desafios semelhantes. Entre as questões que mobilizam esses executivos estão a valorização da área, as restrições orçamentárias e os impactos da inteligência artificial sobre as estruturas organizacionais e a forma como as pessoas trabalham.
“A valorização da área é um desafio constante, desde o posicionamento de RH, que busca sempre que possível o reporte direto para o CEO, até questões de orçamentos que são cada vez mais desafiadoras na medida em que as empresas em geral enfrentam desafios de resultados e pressão por corte de custos”, afirma.
Além da troca entre pares, a curadoria de conteúdo é um dos pilares da Humanship. Em um cenário de excesso de informações, a comunidade busca traduzir tendências complexas em conhecimentos aplicáveis ao cotidiano das lideranças. As conexões também podem contribuir para o desenvolvimento da carreira, ampliar a empregabilidade e apoiar profissionais em momentos de transição.
Em seu primeiro período de atuação, a Humanship já acompanhou casos de executivos que ampliaram o protagonismo de suas áreas, conquistaram novas posições e implementaram inovações a partir dos conhecimentos e das conexões construídos nas atividades da comunidade.
Essa proposta de conectar lideranças e ampliar o repertório sobre o futuro do trabalho também ganhou expressão na primeira edição do Humanship Festival, realizada em São Paulo nos dias 16 e 17 de outubro. O evento reuniu profissionais de RH para discutir temas como inteligência artificial, desenvolvimento, gestão de talentos e relações humanas no trabalho.
O que as pessoas fazem quando se encontram
O aprendizado acontece entre pares, em tempo real e sem hierarquia entre quem ensina e quem aprende. E, por trás de tudo isso, há uma curadoria natural: os materiais, ferramentas e cases que circulam nesses grupos já chegam validados por quem testou a solução na prática, o que economiza tempo e direciona o foco para o que realmente gera valor em meio ao excesso de informação disponível atualmente.
“Uma comunidade relevante não substitui a organização. Ela amplia o mundo ao redor do profissional”, salienta Silvana Pampu, HRBP General Manager LATAM da Renault e fundadora do Instituto Connect, que aposta no capital relacional como ferramenta para ampliar a atuação dos executivos para além do cargo que ocupam.
Se o RH Modo Atleta nasceu com o esporte como ponto de partida, o Instituto Connect de Silvana parte de outro lugar: a solidão que ela viveu como executiva antes de fundar a comunidade.
Instituto Connect: construir relações para ampliar possibilidades
Se o RH Modo Atleta nasceu com o objetivo de colocar a saúde em destaque, o Instituto Connect surgiu de uma inquietação vivida por Silvana como executiva. “Quanto mais avançamos na carreira, mais complexas e, muitas vezes, solitárias se tornam as decisões”, explica.
Segundo ela, existem muitos espaços para networking, mas poucos ambientes capazes de reunir executivos para discutir carreira, negócios e liderança com profundidade. “O Connect nasceu para preencher essa lacuna. Somos um ecossistema de desenvolvimento executivo em rede.”
O grupo promove encontros presenciais, peer coaching (coaching entre pares), fóruns, produção de artigos, podcasts e conexões feitas por curadoria, mas o conceito central é o capital relacional. “Não se trata simplesmente de conhecer muitas pessoas. É construir uma rede de confiança capaz de ampliar nossa visão, desafiar nossas certezas e mobilizar conhecimento quando necessário”, acrescenta Silvana.
Para isso, a comunidade procura conectar pessoas com trajetórias complementares, e não apenas profissionais do mesmo setor. “A pergunta central não é apenas ‘quem essa pessoa precisa conhecer?’, mas ‘que encontro pode ampliar o mundo dessas duas pessoas?’”, salienta a executiva.
Outro eixo do Connect é estimular que executivos construam uma identidade profissional que ultrapasse a empresa onde trabalham. No ecossistema, os membros são incentivados a atuar também como conselheiros, mentores, professores, investidores, palestrantes e produtores de conteúdo — um movimento alinhado ao conceito de carreira slash. “A empresa faz parte da trajetória do executivo, mas não deve ser a totalidade de sua identidade.”

Ana Paula Sousa é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em Gestão de Imagem e Branding pela Universidade Anhembi Morumbi. Atua há mais de 20 anos na área de comunicação, com passagens por redações de jornais como Folha de S.Paulo e de revistas das editoras Abril e Globo. É especialista em estratégia de conteúdo, SEO e branding, com certificações em copywriting, storytelling e UX writing.





