Segundo dados do Censo 2022, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população negra representa 55,5% dos brasileiros e, com base na Pnad Contínua, 55,4% da força de trabalho no país. Porém, a presença nos cargos de liderança das maiores empresas do país ainda é baixa: de acordo com o Instituto Ethos, pessoas negras ocupam 5,9% dos conselhos de administração e 13,8% das diretorias.
Um levantamento feito pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostrou que, em 2024, apenas um em cada 48 homens negros estava em uma posição de liderança — a desigualdade também se repete para as mulheres, já que apenas 2% ocupam estes cargos. No total, apenas um terço (33%) das pessoas em cargos de liderança são negras.
A baixa porcentagem destaca não apenas o desafio que os profissionais enfrentam para alcançar essas cadeiras, mas também a dificuldade em mantê-las. O Flash Humanidades lista 15 executivos de diferentes segmentos que desafiam o status quo, deixam sua marca no mundo dos negócios e devem ser acompanhados de perto.
Quais executivos negros lideram grandes empresas no Brasil hoje?
CEO da Bayer CropScience para a América Latina, um dos negócios mais rentáveis do setor do agronegócio da companhia no continente, Mauricio acumula mais de 25 anos de experiência e amplo conhecimento do setor, gestão de riscos e liderança de grandes grupos em diversas regiões, com ênfase na América Latina.
Engenheiro civil com MBA em Finanças, teve atuação internacional por meio de missões nos Estados Unidos e no México. Atualmente, também é membro do conselho de administração em um banco de desenvolvimento e em associações setoriais, e é membro do comitê diretivo de inclusão e diversidade da empresa no Brasil, patrocinando o grupo de afinidade voltado para questões raciais.
Presidente do Banco do Brasil, Tarciana é a primeira mulher a liderar a instituição em mais de 215 anos de história. Formada em administração, com especializações em negócios, marketing, liderança e inovação, começou sua trajetória profissional como feirante e professora, e hoje lidera o conglomerado com mais de 125 mil pessoas, buscando performance financeira e impacto social em escala nacional.
Com mais de 25 anos de experiência, também atua como porta-voz do Pacto Global da ONU para o ODS 10 - Redução das Desigualdades e foi reconhecida pela Revista Forbes como uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo, por três anos consecutivos.
Líder de negócios do Creative X da Meta, Raphaella é uma executiva com mais de 20 anos de experiência em publicidade e comunicação. Ela iniciou sua trajetória em agências liderando a estratégia de marcas internacionais e locais.
Hoje, comanda iniciativas de marketing de marca — garantindo consistência global e relevância local — em colaboração com equipes criativas internas e externas para a marca e os aplicativos da Meta. Formada em comunicação social com habilitação em publicidade, já foi reconhecida globalmente ao palestrar em Cannes e foi eleita uma das 100 pessoas negras mais influentes na lusofonia pela BANTUMEN.
Sérgio é cofundador e presidente da Conta Black, fintech focada em inclusão financeira e serviços bancários acessíveis. O executivo começou sua carreira no varejo como intraempreendedor no Mappin, e mais tarde começou a empreender no segmento de jogos para videogames, criando o primeiro buscador de dicas para games do país. Em 2018 fundou a Conta Black, fintech social que tem como propósito a inclusão financeira de pretos e periféricos com o uso da educação .
CEO da Brasis, Felippe possui mais de 20 anos de experiência em marketing, vendas e desenvolvimento de negócios. Formado em publicidade e propaganda, tem como objetivo criar estratégias que vão além do óbvio, traduzindo realidades plurais em campanhas e iniciativas de impacto. Como fundador e líder da BRASIS, ele atua conectando grandes marcas às narrativas autênticas que refletem os diferentes “Brasis”.
Fundador e CEO da Black Influence, agência de marketing de influência focada em diversidade e creators negros, Ricardo possui mais de 15 anos de experiência e é uma das principais vozes da creator economy no Sul Global.
Formado em publicidade, ele já foi reconhecido por instituições como Forbes Under 30 e um dos profissionais de influência mais admirados do Brasil (SCOPEN), e foi jurado do Cannes Lions. Em 2026, fundou a ERA, uma empresa criada para desenvolver carreiras, estruturar negócios e transformar relevância cultural em patrimônio de longo prazo.
Líder de go-to-market do Google Cloud, Natalia é uma executiva com mais de 15 anos de experiência em dados, marketing e tecnologia. Formada em estatística pela USP, com pós-graduação em gestão de negócios e em finanças, hoje comanda estratégias de entrada no mercado em inteligência artificial, computação em nuvem e novas tecnologias. Também atua como mentora de carreira e criou o Método Ébano, que ajuda pessoas a avaliarem a própria trajetória em cinco pilares: empoderamento, brilho, autoconhecimento, network e oportunidades.
Presidente dos comitês de auditoria e riscos da Munich Re Resseguradora do Brasil, da Prudential do Brasil Seguros de Vida e da Caixa Seguradora, Thereza tem 33 anos de trajetória no mercado de seguros brasileiro. Ao longo da carreira, foi CFO, CRO e Chief Actuary. Também atua como conselheira fiscal do Instituto Identidades do Brasil e como mentora no programa LíderNegra. Defende a diversidade na liderança como fator de inovação e de sustentabilidade econômica das empresas.
Gerente executiva global de diversidade, equidade e inclusão e bem-estar da Braskem, Débora é executiva de RH e professora da Fundação Dom Cabral em diversidade e inclusão. Formada em administração de empresas com MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV e certificação em gestão estratégica de RH pela Cornell University, começou sua trajetória na IBM como estagiária técnica e passou quase 20 anos na companhia. Depois, foi gerente de talent acquisition na BRF antes de assumir a liderança global de DEI e bem-estar na petroquímica.
Diretora de Valor em Saúde para a América Latina na MSD, onde atua na área médica desde 2016, Suellen é farmacêutica com cerca de 18 anos de experiência na indústria farmacêutica. Tem especialização em Farmacologia Clínica e Avaliação de Tecnologias em Saúde, MBA em Relações Governamentais pela FGV e mestrado em Políticas Públicas Internacionais pela Queen Mary University of London.
Lançou o capítulo de diversidade e inclusão da MSD no Brasil, é co-líder global do grupo de funcionários LEAD, lidera o grupo de equidade racial do Sindusfarma e mentora de jovens negras. Em 2023, foi reconhecida pelo MIPAD 100, da ONU, entre as pessoas negras mais influentes, na categoria Saúde e Bem-estar.
E no mundo, quem são as lideranças negras?
No cenário global, a representatividade é ainda menor: em 2026, apenas 10 executivos negros apareceram na Fortune 500, cerca de 2% do ranking das maiores empresas norte-americanas. Fora dos Estados Unidos, empresários como Aliko Dangote e Strive Masiyiwa constroem negócios de escala continental na África.
Fundador do grupo Econet, que reúne empresas de telecomunicações e tecnologia na África, Strive é engenheiro eletrotécnico formado pela Cardiff University e abriu sua primeira empresa em 1986, no Zimbábue. Foi conselheiro da Unilever entre 2016 e 2024, presidiu a Alliance for a Green Revolution in Africa por oito anos e hoje integra os conselhos da Netflix e da Fundação Gates. Em 2024, recebeu a Medalha W. E. B. Du Bois, a mais alta honraria concedida pela Universidade de Harvard a pessoas que deram contribuições extraordinárias à cultura africana e afrodescendente, à vida intelectual e à luta por justiça social.
Presidente e CEO da Lowe’s desde julho de 2018, Marvin comanda uma das maiores varejistas de materiais de construção e reforma dos Estados Unidos. Começou a carreira na Target, como segurança de loja, e depois chegou a vice-presidente executivo de Lojas da Home Depot, responsável por mais de 2 mil unidades. Antes da Lowe’s, foi presidente do conselho de administração e CEO da JCPenney. É formado em marketing.
Presidente e CEO da TIAA desde 2021, Thasunda lidera uma das maiores gestoras de previdência e investimentos dos Estados Unidos. Antes, foi CEO do Chase Consumer Banking, divisão com mais de US$ 600 bilhões em depósitos e 50 mil funcionários, e do Chase Auto Finance. Começou no mercado de crédito imobiliário e foi diretora de Mercados Emergentes da Fannie Mae. Formada em finanças e marketing, integra os conselhos da Nike e da Brex e fundou a Otis and Rosie Brown Foundation, em homenagem aos pais.
Presidente e CEO da Southern Company, uma das maiores empresas de energia elétrica e gás dos Estados Unidos, Christopher está na companhia desde 1988. Passou por cargos executivos como vice-presidente executivo de assuntos externos e chefe de RH, e foi presidente do conselho, presidente e CEO da Georgia Power, a maior subsidiária do grupo. Antes, atuou em relações públicas e serviços corporativos na Alabama Power.
É formado pela Western Michigan University, tem mestrado pela American University e concluiu o Stanford Executive Program em 2001. Integra o conselho da Invesco e é vice-presidente do conselho do Edison Electric Institute.
Fundador e presidente do Dangote Group, o maior conglomerado industrial da Nigéria, Aliko construiu um império em cimento, açúcar e fertilizantes. Hoje comanda a refinaria Dangote, perto de Lagos, apontada como a maior do mundo em um único módulo, com capacidade planejada de 650 mil barris por dia.
Em 2026, a African Energy Chamber o elegeu “Pessoa do Ano na Energia Africana” por reduzir a dependência nigeriana de derivados de petróleo importados. É frequentemente apontado como o homem mais rico da África.
Por que a lista de pessoas negras no topo das empresas ainda é curta?
A lista é curta porque o acesso à liderança segue desigual: há barreiras históricas, pouca política efetiva de progressão de carreira, redes de contatos e indicações dominadas por pessoas não negras e, mesmo no topo, uma diferença salarial de 34% em média em relação a pessoas brancas nos mesmos cargos, segundo o levantamento Síntese de Indicadores Sociais, divulgado pelo IBGE.
O que o RH pode aprender com as trajetórias desses executivos?
As trajetórias dos 15 executivos citados mostram que o RH pode ampliar o acesso a cargos de liderança para grupos minorizados ao olhar para potencial sem viés Alguns caminhos são estruturar mentoria e patrocínio executivo, apoiar grupos de afinidade e investir em desenvolvimento contínuo, do estágio ao conselho de administração.
-
Olhar para o potencial, não só para o currículo: antes de se tornar a primeira mulher presidente do Banco do Brasil, Tarciana começou sua trajetória como feirante e professora. Já Marvin R. Ellison iniciou sua carreira como segurança de loja, e hoje é presidente e CEO da Lowe’s.
-
Investir em quem já está dentro de casa: Christopher Womack, presidente e CEO da Southern Company, está na empresa desde 1988; antes de se tornar gerente executiva global de diversidade, equidade e inclusão e bem-estar da Braskem, Débora esteve por quase 20 anos na IBM, começando como estagiária técnica.
-
Patrocinar grupos de afinidade e mentoria: Mauricio Rodrigues, CEO da Bayer CropScience para a América Latina, integra o comitê diretivo de inclusão e diversidade da empresa no Brasil e patrocina o grupo de afinidade voltado a questões raciais. Suellen Rodrigues lançou o capítulo de diversidade e inclusão da MSD no Brasil, é co-líder global do grupo de funcionários LEAD e mentora jovens negras. Thereza Moreno é mentora no programa LíderNegra, e Natalia Amancio criou o Método Ébano, que ajuda profissionais a avaliar a própria trajetória.
-
Preparar para conselhos e experiências internacionais: além de presidir os comitês de auditoria e riscos de três seguradoras, Thereza atua como conselheira fiscal do Instituto Identidades do Brasil. Thasunda Brown Duckett, CEO da TIAA, integra os conselhos da Nike e da Brex. Mauricio é membro do conselho de administração de um banco de desenvolvimento e atuou em missões internacionais nos Estados Unidos e no México. Já Christopher Womack concluiu o Stanford Executive Program em 2001.
O que as empresas têm feito para deixar a liderança mais diversa?
Empresas têm estruturado grupos de afinidade com patrocínio de executivos, áreas dedicadas à diversidade, programas de mentoria e aceleração de carreira e metas de diversidade na liderança. Das empresas que constam na lista, a MSD lançou um capítulo de diversidade e inclusão no Brasil, e a Braskem tem uma liderança global de DEI, por exemplo.
Confira a seguir outros cases:
-
Metas e acompanhamento de dados: a Heineken Brasil tinha 36% de líderes pretos e pardos em 2024, contra 26% em 2021, e mira 40% até 2030.
-
Mentoria e aceleração: o programa de aceleração de carreira para pessoas pretas e pardas Dàgbá – Líderes do Futuro, da Ambev, teve 57 concluintes e 12 promovidos na 1ª turma, e a 2ª edição ampliou para 90 participantes. A Publicis Groupe Brasil lançou em julho de 2026 o Power Flow, mentoria para pretos e pardos de analista a coordenação.
-
Programas afirmativos de estágio e trainee: Empresas como Bayer e Folha de São Paulo criaram turmas de trainee exclusivas para pessoas pretas e pardas.
-
Compromissos coletivos: O MOVER, Movimento pela Equidade Racial, nasceu em 2021 e hoje já reúne 60 empresas. Em 2025 gerou 2.568 novas lideranças negras e 440 mil oportunidades, com meta de 10 mil lideranças e 3 milhões de oportunidades até 2030.
Continue navegando pelo Flash Humanidades:





