Existe um momento na vida profissional em que deixamos de procurar apenas o próximo desafio e começamos a buscar um novo significado para aquilo que já construímos.
É uma mudança silenciosa. Do lado de fora, quase nada parece diferente. A carreira continua consistente, os resultados seguem acontecendo, o reconhecimento permanece. Mas, internamente, uma nova pergunta começa a ocupar espaço. Ela já não diz respeito ao próximo cargo, ao tamanho da equipe ou ao escopo de responsabilidade. Ela questiona algo muito mais profundo: qual é o melhor lugar para colocar toda a experiência que a vida nos permitiu construir?
Essa talvez seja uma das transições mais importantes da vida executiva e, paradoxalmente, uma das menos compreendidas.
Fomos educados para acreditar que carreiras evoluem como escadas. Cada degrau representa uma promoção, uma nova responsabilidade, uma conquista maior do que a anterior. Durante muito tempo, essa lógica faz sentido. Ela impulsiona crescimento, amplia repertório, desenvolve competências e nos desafia continuamente a entregar mais.
Mas chega um momento em que a carreira deixa de ser uma escada e passa a ser um espelho.Em vez de perguntarmos “para onde posso subir?”, começamos a perguntar “a serviço de quem quero colocar tudo aquilo que aprendi?”.
A diferença entre essas duas perguntas parece pequena, mas, na prática, ela muda tudo.“Para onde posso subir ou crescer?” fala sobre ascensão, que é muito importante em determinados momentos da carreira. Mas se perguntar: “a serviço de quem quero colocar tudo aquilo que aprendi?” fala sobre sobre contribuição e sobre impacto.
Ao longo dos últimos anos, tenho observado esse movimento em muitos líderes com quem trabalho. Executivos experientes, ocupando posições relevantes, continuam apaixonados pelo universo corporativo e profundamente comprometidos com seus negócios. Não estão cansados. Não perderam o entusiasmo. Tampouco desejam abandonar aquilo que construíram.
O que muda é outra coisa.
Em determinado momento, eles percebem que sua experiência já não pertence apenas ao contexto da organização em que atuam. Ela passa a ter potencial para atravessar fronteiras, conectar diferentes realidades e contribuir para o desenvolvimento de muitas outras pessoas, equipes e empresas.
Curiosamente, esse movimento costuma ser interpretado como uma ruptura, quando, na verdade, representa continuidade, ou como costumo chamar, uma evolução.
Transição nem sempre vem de uma crise
Ainda existe uma expectativa de que toda grande mudança seja precedida por uma crise. Espera-se um desgaste, uma frustração ou algum acontecimento extraordinário que justifique uma decisão importante. Como se só fosse legítimo mudar quando permanecer deixasse de ser possível.
Minha experiência foi diferente.
Depois de mais de três décadas atuando em grandes organizações, tive o privilégio de viver uma trajetória que me transformou profundamente. Aprendi com líderes extraordinários, participei de momentos decisivos de transformação organizacional, acompanhei o desenvolvimento de centenas de profissionais e compreendi, na prática, que cultura, liderança e estratégia jamais caminham separadas.
Nunca deixei de acreditar nas organizações. Muito pelo contrário. Continuo convencida de que elas são uma das maiores forças de transformação da sociedade e de que bons líderes têm a capacidade de mudar o destino de empresas e de pessoas.
Foi justamente por acreditar nisso que percebi que minha contribuição poderia ultrapassar os limites de uma única organização.
Na transição, substituí velocidade por escuta
Com o tempo, compreendi que aquilo que mais gerava valor no meu trabalho não eram apenas as decisões das quais participava, mas as conversas que ampliavam a forma como outras pessoas enxergavam seus próprios desafios. Descobri que meu papel nunca esteve apenas em responder perguntas difíceis. Sempre esteve em construir discernimento, ampliar repertórios e criar condições para que líderes encontrassem respostas coerentes com a realidade dos seus negócios e com aquilo que desejavam construir.
Essa percepção não nasceu de um grande acontecimento. Ela foi amadurecendo lentamente, até que decidi fazer uma pausa. Uma pausa planejada por quase 3 anos, entre entender que eu não ia me aposentar na firma e, realmente tomar a decisão de fazer um “nano sabático” (no caso, 25 dias de viagem). Pela primeira vez em muitos anos, substituí a velocidade pela escuta. Em vez de procurar respostas imediatas, permiti que algumas perguntas permanecessem comigo por mais tempo.
Foi nesse silêncio que compreendi uma diferença importante: a carreira muda de forma ao longo da vida, a identidade profissional também evolui, mas aquilo que nos move encontra novas maneiras de se manifestar.
Foi dessa compreensão que nasceu a Villa Franzoti. Não como uma empresa, mas como consequência natural de uma trajetória que já não cabia dentro dos limites de uma única organização. Ela não representa uma nova versão da minha história. A Villa representa o desejo de colocar mais de três décadas de experiência a serviço do desenvolvimento de líderes, equipes, conselhos e organizações que acreditam que crescimento humano e do negócio não são caminhos paralelos, mas dimensões inseparáveis da mesma estratégia.
Neste pouco mais de um ano de Villa Franzoti, quebrei uma série de paradigmas e vieses mentais importantes: há muita colaboração no mundo do empreendedorismo, vi que é possível trabalhar com amigos e pessoas queridas, entendi mais do que nunca que há um mundo infinito de possibilidades para serem aprendidas. E sim, entendi que o céu não é o limite.
Pouco tempo depois, essa mesma inquietação encontrou uma nova expressão na criação do New Territories, ao lado do meu sócio e amigo José Renato Domingues. O programa executivo nasceu da convicção de que os CHROs vivem um momento de expansão de identidade profissional e que o desafio já não é apenas liderar a agenda de pessoas. É ocupar um novo território nas decisões de negócio, participar das discussões sobre estratégia, crescimento, inovação, alocação de capital e futuro das organizações.
Talvez seja por isso que me identifico tanto com esses líderes.
Percebo que muitos deles não procuram uma nova carreira. Procuram uma nova forma de exercer toda a experiência que construíram ao longo da vida.
Hoje, quando acompanho executivos em seus processos de desenvolvimento, percebo que a transformação mais profunda raramente acontece quando alguém aprende uma nova ferramenta ou desenvolve uma competência específica. Ela acontece quando muda a maneira como esse líder compreende a própria contribuição.
Existe uma maturidade muito bonita nesse movimento.
Ela nos lembra que autoridade não nasce apenas do cargo que ocupamos, mas da capacidade de conectar experiências, ampliar perspectivas e criar condições para que outras pessoas cresçam. Descobrimos, aos poucos, que nossa principal entrega deixa de ser aquilo que realizamos individualmente e passa a ser aquilo que ajudamos outras pessoas a construir.
Mudei minha compreensão do que significa sucesso. Durante muito tempo, associei crescimento profissional à ampliação das responsabilidades e das posições ocupadas. Hoje percebo que existe uma outra medida igualmente importante: a capacidade de ampliar o impacto daquilo que aprendemos ao longo da vida. Em algum momento da carreira, deixamos de ser definidos apenas pelo que fazemos e passamos a ser reconhecidos pela qualidade da transformação que provocamos nas pessoas e nas organizações.
Quando olho para minha própria trajetória, não tenho a sensação de que construí duas carreiras. Vejo uma única história, que encontrou diferentes formas de se expressar ao longo do tempo.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem passou uma vida inteira aprendendo. Não guardar a experiência como patrimônio pessoal, mas colocá-la em movimento. Porque, no fim das contas, descobri que mudar de território nunca significou mudar quem eu era.
Significou apenas ampliar a forma como poderia contribuir. E tem sido uma experiência extraordinária.
Este é um artigo de opinião, que corresponde à visão do autor sobre determinado tema. O texto não reflete necessariamente às opiniões do Flash Humanidades.
Sobre o(a) Autor(a)

CEO e fundadora da Villa Franzoti Desenvolvimento Humano e co-fundadora da New Territories Educação Executiva. Tem mais de 30 anos de experiência em RH em empresas como Ford, Coca-Cola e Unilever, atuando como executiva.
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