Em 2024, a pergunta era qual modelo de IA escolher. Em 2027, esse questionamento mudou, e quem não percebeu ainda está tentando resolver o problema errado.
Foi essa a provocação que marcou o primeiro dia do Mirante @ Nova York 2027, imersão na cidade de Nova York realizada pela escola Koru, em parceria com o Flash Humanidades, e que reúne executivos C-Level e nomes da Ivy League para investigar impacto, novidades e o que é fumaça (ou não) na era da IA.
Joyce Shen, professora de ciência de dados e IA na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e investidora em empresas de tecnologia aplicada, recebeu a delegação brasileira para duas masterclasses que abordaram as mudanças radicais nas discussões sobre tecnologia e como isso impacta a liderança. Para ela, o foco mudou de direção e os gestores podem estar deixando essa virada passar despercebida.
“Em 2024 e 2025, falávamos sobre como escolher modelos, engenharia de prompt, como ajustar a infraestrutura”, apontou. “O que precisamos discutir agora é: como garantir governança, confiabilidade e segurança nesses modelos? Como medimos, de fato, o valor agregado do que estamos construindo?”.
Construir ficou mais rápido; avaliar ficou mais difícil
Segundo a professora, que também investe em capital de risco/capital privado, o ciclo de desenvolvimento de produtos de IA encolheu cerca de 40% no último ano — dado que concretiza a aceleração do uso da tecnologia. Um protótipo que antes exigia meses e múltiplas especialidades, hoje pode nascer em poucos dias.
Apesar disso, a investidora aponta que a importância de avaliar o que realmente funciona não mudou. “Definir o problema corretamente continua sendo essencial. O desenvolvimento ficou mais curto, mas a avaliação ficou mais complicada”. Joyce afirma que essa velocidade de criação de novas ferramentas provocou uma reconfiguração do próprio mercado de capital de risco, fazendo com que os investidores fiquem ainda mais criteriosos. “Não basta mais chegar com um protótipo. É preciso mostrar clientes reais, algum sinal concreto de mercado.”
Ela aponta que, com a IA gerando respostas cada vez mais disponíveis, é o momento de retornar ao “método socrático” como caminho de formação – que pressupõe uma série de questionamentos para estimular o pensamento crítico e o aprendizado.
“Devemos ensinar como fazer perguntas: reunir informação, questionar, gerar hipóteses, testar esses caminhos e decidir com base nisso. Isso muda completamente a forma como o ensino foi feito nas últimas décadas. Ensinar de verdade é formar um jeito diferente de pensar.”

Delegação brasileira de executivos C-Level na imersão Mirante @ Nova York 2027 | Foto: Juliana Cordaro
Conhecimento vira vantagem competitiva
Hoje a vantagem competitiva real não está mais em usar o modelo mais avançado de IA, mas em combiná-lo com conhecimento que não existe publicamente. “É parte ciência, parte arte. A ciência são os modelos, que todo mundo tem acesso. A arte é pegar o conhecimento de domínio dos especialistas e traduzir isso de um jeito que o modelo consiga usar”, afirma Joyce.
As empresas podem usar modelos de IA distintos a qualquer momento, porém, não é possível replicar décadas de decisões, processos e relações que só existem dentro da própria organização. Com esse movimento, o valor migra para dentro das empresas — inclusive em relação aos dados, que se tornam um novo campo de disputa.
“A maior parte dos dados do mundo está dentro das próprias organizações”, afirmou Joyce, ao explicar que o desafio deixou de ser só proteger essas informações. Agora é preciso entender quais dados existem, como circulam, quem tem acesso a eles e como podem agregar valor ou virar uma vantagem.
O novo papel do CHRO
Ao ser questionada sobre o papel do CHRO neste cenário, Joyce foi direta: “é uma oportunidade enorme”. “Historicamente, as empresas tratam o RH como uma função de processo: onboarding, benefícios, remuneração. Esse mundo acabou.”
Para ela, a discussão que hoje cabe ao CHRO não é exclusivamente sobre pessoas, mas sobre arquitetura organizacional. Cabe ao diretor de RH entender quantas camadas de gestão são necessárias, como redesenhar incentivos e medir performance em um mundo onde humanos e agentes de IA dividem tarefas. “Não é mais ‘recursos humanos’. É decidir onde, exatamente, a presença humana ainda é indispensável.”
Essa mudança chega até aos processos seletivos. Com a IA gerando cada vez mais conteúdo, é preciso ensinar ao público a diferença do mediano e do excelente, o que, para ela, se reflete na busca por novos talentos. “O que interessa é testar como a pessoa pensa diante de um problema real, com informação incompleta.”
Para Joyce Shen, a redução de camadas de liderança deve acontecer de forma mais agressiva em empresas nativas digitais. Porém, ela reforça que uma boa liderança não deve ser substituída por ferramentas organizacionais. “Bons líderes motivam e mantêm um time unido em momentos difíceis — eles não aparecem nos tempos fáceis. Um agente [de IA] pode organizar tarefas, mas não constrói confiança nem compromisso coletivo.”
E apesar desse novo papel do CHRO estar claro para a executiva — e para boa parte do mercado — esta ainda não é a realidade das companhias, de acordo com CEOs brasileiros. Apenas 2 em cada 10 presidentes recomendariam o seu RH para outra empresa, e a área registrou um NPS de -7, segundo a pesquisa “A Visão dos CEOs sobre o RH”, feita pelo Flash Humanidades em parceria com a FIA Business School.
Os executivos ouvidos na pesquisa desejam líderes de gestão de pessoas com mais visão de negócios e capacidade de gerir dilemas em cenários complexos.
Confira a conversa entre Isadora Gabriel, CHRO da Flash, e Michelle Dapper, CHRO da Leroy Merlin, sobre os principais insights do primeiro dia de imersão:
NY quer ser a capital mundial da IA aplicada
Além da aula com Joyce, a delegação de executivos brasileiros foi recebida por Josefina Echeverría, gerente sênior de projetos de parcerias da NYCEDC (Corporação de Desenvolvimento Econômico da Cidade de Nova York), uma organização sem fins lucrativos que atua como o principal motor de crescimento econômico e geração de empregos nos cinco distritos da cidade.
Ao longo da conversa, a executiva revelou que um dos objetivos da NYCEDC é transformar Nova York, a cidade mais populosa dos Estados Unidos, na capital mundial da inteligência artificial aplicada. Na prática, isso significa fazer com que “fundadores e empreendedores usem as tecnologias que criaram e as apliquem em soluções de negócio e problemas reais”.
Com essa visão, a corporação lançou um projeto chamado AI Nexus. A estratégia central é conectar empresas com problemas reais a operadores que financiam e incubam startups de IA, como Plug and Play e C10 Labs. “O objetivo é acelerar a adoção dessas tecnologias nos setores tradicionais como finanças, jurídico e seguros.”
A lição vai além da tecnologia e mostra como liderar uma mudança de cultura em uma grande escala: o que orienta o processo não é a IA, mas a clareza. Uma meta específica guia ações concretas e a organização, um desafio que o RH, ao assumir o papel de liderar a transformação na era da IA, também enfrenta.
Bibliotecários como especialistas de IA
Hoje, Nova York conta com quase 400 mil trabalhadores no ecossistema de tecnologia — o segundo maior do mundo, atrás apenas do Vale do Silício, segundo Josefina. Parte dessa capacitação passa por iniciativas como a de um programa de alfabetização digital voltado a bibliotecários, que depois replicam esse conhecimento para a população.
Na prática, o cidadão pode entrar em bibliotecas, como New York Public Library, e conversar com um dos mais de 100 bibliotecários que fazem parte do programa sobre como podem aplicar a IA no dia a dia — tanto pessoal como profissionalmente.
“Já vimos uma grande atração de empresas buscando comercializar suas soluções, porque conseguem de fato aplicá-las aqui”, diz Josefina, ao explicar por que a cidade tem atraído negócios que já passaram por outros polos de inovação, como o Vale do Silício, mas buscam Nova York para crescer e monetizar”.

Josefina Echeverría, gerente sênior de projetos de parcerias da NYCEDC durante masterclass no Mirante @ Nova York 2027 | Foto: Juliana Cordaro
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