Era novembro de 2024 e, durante uma imersão executiva para líderes em Harvard, em meio a conversas com profissionais de diferentes mercados e ao burburinho que o tema do uso da inteligência artificial no mundo corporativo provocava, o executivo de RH Léo Oliveira passou a se perguntar: em que área da gestão de pessoas a IA realmente representava uma vantagem competitiva?
Para além da experiência na viagem, sua bagagem de mais de 20 anos de trabalho no RH de empresas como Latam, Siemens, Netflix e Wellhub logo o levaram a concluir que a resposta que buscava o levava além do uso da tecnologia em trabalhos operacionais. “Voltei ao Brasil com uma inquietação mais clara e mais urgente”, afirma Léo.
Foi assim que nasceu a Humanos & IA, uma ferramenta que olha para a cultura corporativa para produzir soluções que ajudam lideranças a tomar decisões, como um “executivo digital”, mas que coloca o humano no centro.
Em conversa com o Flash Humanidades, Léo Oliveira, que é CEO da empresa, fala sobre as lacunas que vê no mercado e como acredita que o uso da tecnologia na gestão de pessoas pode ajudar a torná-la mais estratégica.
Papel da IA no RH
A IA já é uma realidade hoje na operação das empresas, sobretudo num contexto de otimizar trabalhos burocráticos. A Humanos & IA se propõe a ir um pouco além disso, "pensando" como um gestor? Que lacuna você enxergou no mercado ao criar a sua ferramenta?
Léo Oliveira: A maior lacuna que identifiquei ao longo da minha trajetória em grandes organizações foi a distância entre o planejamento estratégico e a execução na ponta. Participamos de reuniões de diretoria, ciclos de planejamento altamente estruturados, mas muitas vezes o desdobramento para os líderes operacionais perde força, clareza ou contexto.
A Humanos & IA nasce exatamente para reduzir essa fricção. Não se trata apenas de automatizar processos, mas de apoiar o líder na tomada de decisão conectada às metas estratégicas, sejam OKRs (Objectives and Key Results), metas SMART ou indicadores departamentais e globais. A plataforma atua como um reforço estratégico contínuo. Ela relembra o contexto organizacional, considera dados estruturados e ajuda o gestor a decidir de forma alinhada à direção da companhia. O objetivo é transformar estratégia em comportamento decisório consistente.
E como foi o processo até a criação da ferramenta? Você já estava conectado há tempos com essa ideia de que a IA tinha potencial para transformar o mundo corporativo e a gestão de pessoas ou seu mergulho neste universo coincidiu com a incorporação mais massiva da IA ao nosso dia a dia?
Em novembro de 2024, durante uma imersão executiva de liderança em Harvard, eu passei a olhar para IA com mais empolgação: "onde ela realmente cria vantagem competitiva na gestão?", “quais riscos precisam ser governados e como transformar potencial tecnológico em impacto concreto no negócio?”. As conversas com executivos de diferentes mercados ampliaram ainda mais essa visão, e eu voltei ao Brasil com uma inquietação mais clara. Na sequência, aprofundei essa reflexão para além do uso tático.
Em vez de aplicar IA apenas para ganho operacional, foquei em como ela pode qualificar decisões complexas, tomadas sob pressão, com informações incompletas e alto risco de desalinhamento com cultura e estratégia. Foi desse ponto que nasceu a base da Humanos & IA: escalar repertório e pensamento executivo com governança, conectando cultura, metas e contexto do negócio para elevar a qualidade das decisões e fortalecer a liderança, mantendo o humano no centro.

Como IA apoia decisões estratégicas
A ferramenta traz no nome a palavra “Humanos” e boa parte da discussão sobre IA no mundo corporativo trata de uma possível substituição dos humanos pela tecnologia. Você enxerga a Humanos & IA como uma possibilidade para auxiliar um líder de RH ou é possível que em corporações menores, por exemplo, ela possa atuar sozinha?
Nosso posicionamento não é substituir o líder de RH ou de negócio, mas elevá-lo. Acreditamos que decisões estratégicas continuam sendo humanas e o que fazemos é ampliar a qualidade dessas decisões. A plataforma funciona como um executivo digital, oferecendo repertório, provocação estruturada e análise contextualizada.
Isso é especialmente relevante para líderes que muitas vezes decidem sozinhos temas complexos, como conflitos, retenção ou reestruturações. Mesmo em startups ou estruturas menores, onde o RH é enxuto, a ferramenta não atua de forma isolada. Ela fortalece a liderança, aumenta a segurança decisória e libera tempo para que o RH atue de maneira mais estratégica.
Pode contar um pouco mais sobre essa calibragem cultural que a ferramenta permite? Se ela vai olhar para a cultura da empresa, como consegue eventualmente aprimorar alguns vieses?
O tema de viés é central e tratamos isso com muita responsabilidade. Antes de qualquer parametrização tecnológica, realizamos uma imersão cultural estruturada, com assessment organizacional, entrevistas com lideranças e colaboradores. Nosso objetivo é identificar a cultura declarada versus a cultura praticada.
Esse diagnóstico é apresentado ao board e CHRO antes da implementação tecnológica. Só após essa validação iniciamos a parametrização da plataforma. Isso reduz o risco de reforçar vieses existentes e aumenta a aderência da ferramenta à estratégia e aos valores organizacionais. Além disso, mantemos a decisão final sempre com o gestor. A IA apoia, mas não impõe.
Ela vai conseguir sugerir mais mulheres ou pessoas negras em cargos de liderança em empresas que ainda estão distantes dessa diversidade?
A plataforma não impõe direcionamentos. Ela atua alinhada às metas estratégicas da empresa. Se a organização possui metas claras de diversidade e inclusão, a IA considera esse contexto ao estruturar análises e recomendações. Se não há essa diretriz estratégica definida, ela não cria um direcionamento artificial. Nosso papel é garantir coerência entre estratégia declarada e decisões práticas.
A ferramenta consegue atuar em áreas mais técnicas, como onboarding, e em temas sensíveis, como gestão de conflitos e conversas sensíveis. Pode contar um pouco, de maneira mais prática, sobre o funcionamento da Humanos & IA nessas questões?
A plataforma foi desenhada para apoiar a jornada real da liderança e sabemos que grande parte dos desafios não está na operação, mas nas relações humanas. Se um gestor identifica um conflito entre áreas, por exemplo, ele descreve o contexto na plataforma. A partir disso, a IA organiza o problema, apresenta possíveis abordagens, riscos envolvidos, alternativas de condução e impactos potenciais. Não é uma resposta pronta. É ampliação de repertório e estruturação de pensamento. O objetivo é que o líder se sinta mais preparado, reduza decisões impulsivas e conduza situações sensíveis com maior segurança emocional e estratégica.
Onde a ferramenta está disponível hoje e quais são seus planos e metas para 2026 com relação a ela?
Atualmente estamos presentes em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Nosso plano para 2026 é expandir nacionalmente em todas as regiões, consolidando a atuação em empresas de diferentes portes e setores. Como a nossa plataforma é tecnológica, não temos “limites” para expandir nessas regiões, respeitando a particularidade de cada uma. Nossa ambição não é apenas expandir geograficamente, mas contribuir para elevar o padrão de liderança no Brasil.
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