A saúde mental no trabalho passa por uma crise no Brasil e os dados comprovam: afastamentos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) por ansiedade e depressão bateram recordes no Brasil em 2025, chegando a 546 mil, segundo Ministério da Previdência Social. Este contexto mostra, definitivamente, que o tema deve estar no centro das discussões nas empresas.

A quantidade de afastamentos por saúde mental bateu recorde pela segunda vez em dez anos, um aumento de 15% em relação a 2024 (472 mil). Os números se referem às licenças por incapacidade temporária, que são concedidas pelo INSS quando o trabalhador precisa se afastar do trabalho por mais de 15 dias. Os atestados com período menor do que este não entram como afastamentos do INSS e, portanto, há um cenário ainda mais desafiador a ser considerado pelos RHs e empresas.

Dois diagnósticos de transtornos mentais aparecem com mais frequência nos pedidos de afastamentos: ansiedade e depressão. Foram 166.489 e 126.608 atestados, respectivamente. Se em 2021, esses problemas ocupam o nono e o décimo lugar, em 2025 subiram para quarto e sexto lugar.

Para além da saúde mental, o número de afastamentos temporários no Brasil em 2025 foi de 4,1 milhões, de acordo com a Previdência Social — o que representa um aumento de 17% em relação a 2024.

Para entender este cenário, o Flash Humanidades entrevista a psicóloga Silvia Cury, gerente de saúde mental do HCor (Hospital do Coração), e Patricia Pessoa Pousa, executiva de Recursos Humanos, professora da disciplina de saúde corporativa e mindfulness, na FGV, e membro do Comitê de Saúde da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos).

O que está por trás dos afastamento por saúde mental

As especialistas apontam que o crescimento dos afastamentos tem relação com fatores econômicos, sociais e organizacionais. “Não é apenas um número. É um alerta sistêmico sobre como estamos organizando o trabalho no país”, afirma Patricia Pessoa, executiva de RH.

Insegurança financeira, sobrecarga de trabalho, jornadas extensas, pressão por produtividade e ambientes corporativos pouco saudáveis estão entre os principais fatores associados ao adoecimento mental. Também há uma mudança cultural importante: os trabalhadores estão mais conscientes sobre saúde emocional e buscam ajuda profissional com mais frequência.

Ao mesmo tempo, diagnósticos como burnout passaram a ser reconhecidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como relacionados ao trabalho, reforçando a responsabilidade das organizações na prevenção.

Como o RH deve agir?

A psicóloga Silvia Cury observa que, além dos afastamentos, as equipes de RH e lideranças devem prestar atenção no comportamento dos colaboradores e identificar, inicialmente, dados de absenteísmo, turnover e sinais de queda no engajamento.

“Os números de faltas e de rotatividade já indicam que alguma coisa está errada”, avalia. “O RH, hoje, deve ter um olhar amplo, e os gerentes e líderes têm de conhecer suas equipes para conseguirem se aproximar ao notarem diferenças de comportamento e de sentimentos. Não precisa esperar uma licença médica ou o diagnóstico de burnout.”

Apesar de o departamento de recursos humanos ser essencial para identificar questões emocionais nos times, a área também sofre. De acordo com a 3ª edição do Panorama da Saúde Emocional do RH, estudo exclusivo do Flash Humanidades, 63% dos RHs ouvidos dizem que conhecem um colega que foi afastado por esgotamento profissional no último ano.

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O impacto para empresas e para os governos

Os afastamentos por saúde mental têm efeitos diretos na economia e na produtividade para além das empresas. Além dos custos previdenciários — que chegam a bilhões de reais — há perda de produção, aumento do turnover e queda do engajamento das equipes.

Em 2024, por exemplo, os afastamentos por transtornos mentais já eram apontados como os maiores números em pelo menos uma década, indicando uma mudança estrutural no perfil de adoecimento da força de trabalho.

“Organizações que seguem investindo apenas em metas, pressão e indicadores financeiros, ignorando o estado emocional das lideranças e colaboradores, estão assumindo um risco alto, incluindo aspectos humanos, operacionais e reputacionais”, resume Patricia.

E esses problemas ultrapassam as fronteiras. A OMS calcula um prejuízo de quase US$ 1 trilhão, anualmente, devido a afastamentos relacionados a esses transtornos no mundo todo. No mesmo período, são perdidos 12 bilhões de dias de trabalho por casos de depressão e ansiedade.

Saiba mais: Um em cada cinco brasileiros trabalha sob sofrimento psicológico: como RHs e líderes podem agir?

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Por que o tema está tão em alta agora

A combinação entre números recordes, pressão econômica e mudanças culturais fez com que saúde mental deixasse de ser tratada como questão individual para ser encarada como tema estratégico.

O caminho começou há alguns anos. Em 2022, a OMS e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançaram novas diretrizes para as corporações lidarem com a questão da saúde mental. Foi a primeira vez que a agência de saúde recomendou treinamento de lideranças para prevenir ambientes tóxicos e identificar e atender profissionais em sofrimento.

A OIT defendeu a necessidade de investir em uma cultura de prevenção dos riscos e de garantir que não haja estigma e exclusão de colaboradores com problemas de saúde mental.

Hoje, empresas discutem políticas de bem-estar, modelos de trabalho híbrido, gestão humanizada e prevenção ao burnout não apenas por responsabilidade social, mas também por necessidade operacional. Afinal, manter equipes saudáveis é condição básica para a sustentabilidade dos negócios.

No Brasil, campanhas nacionais e iniciativas institucionais também têm ampliado o debate, reforçando a importância de sentir segurança física e emocional.

Com a alta procura para atendimento com psicólogos e psiquiatras no SUS (Sistema Único de Saúde), prefeituras decidiram treinar profissionais da atenção básica — ou seja, nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) -– para o tratamento de casos leves e moderados de problemas de depressão, ansiedade e outros problemas de saúde mental.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, 125 profissionais de Aracaju (Sergipe), Santos e São Caetano do Sul (as duas últimas de São Paulo), já receberam formação. Isso deve desafogar a fila por consultas com especialistas.

Dentro das empresas, o governo federal realizou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes de saúde no ambiente de trabalho. O novo texto exige a inclusão dos “riscos psicossociais” como parte do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas.

Segundo o Ministério do Trabalho, riscos psicossociais são aqueles relacionados à organização e às interações interpessoais no ambiente de trabalho. Eles incluem fatores como jornadas exaustivas, metas inalcançáveis, pressão excessiva, falta de suporte, assédio moral e sexual e conflitos. Como resultado, o trabalhador fica vulnerável a estresse, ansiedade, depressão e outros transtornos mentais.

A medida entrou em vigor em maio deste ano. No entanto, em junho foi suspensa por 90 dias a aplicação de multas e sanções administrativas relacionadas à gestão de riscos psicossociais e saúde mental previstas na norma.

Quer saber como se preparar para a NR-1? Assista ao nosso webinar com experts em saúde mental.

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O que muda daqui para frente

O aumento dos afastamentos e os dados sobre absenteísmo e turnover funcionam como alertas para organizações e governos. A tendência é que políticas de saúde mental no trabalho deixem de ser diferencial competitivo e passem a ser requisito básico de gestão.

O desafio agora é transformar dados em ação: investir em prevenção, capacitar lideranças, promover cultura organizacional saudável e ampliar o acesso ao cuidado psicológico. Neste cenário, o RH tem o papel fundamental de coordenar o esforço e manter as lideranças formadas sobre a melhor maneira de lidar com o problema.

“Líderes preparados emocionalmente sustentam performance, reduzem conflitos, aumentam engajamento e constroem ambientes psicologicamente seguros”, ressalta Patricia. A executiva diz que os líderes devem aprender a cuidar de si mesmos, das pessoas e dos negócios — nessa ordem.

Silvia lembra que, entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU, estão saúde de qualidade e trabalho digno. “As pessoas passam grande parte do dia trabalhando. As empresas sabem disso. É importante garantir um ambiente positivo, promovendo ações para garantir a saúde física e a mental.”

Mais do que uma pauta de RH, saúde mental se tornou uma questão estrutural do mundo do trabalho — e os números mostram que ignorar o tema já não é uma opção.

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Luciane Scarazzati
Luciane Scarazzati

Acredita no poder transformador da informação e da educação. Após a graduação em jornalismo, fez uma especialização em Marketing e Comunicação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e mestrado em Comunicação Digital no Celsa/Sorbonne Université, na França. Atuou nas equipes que lançaram a CNN Brasil e o site G1 e também trabalhou em outros importantes veículos, como TV Globo e UOL.

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