Entre notificações de promoções, posts de viagens a trabalho dos sonhos e dicas de profissionais que parecem já ter “chegado lá” nas redes sociais, é fácil cair na comparação e sentir que está atrasado na vida profissional. Cada vez mais presente no mercado corporativo, essa sensação de estar sempre um passo atrás tem nome: disforia de carreira, uma percepção distorcida da própria realidade.

A palavra disforia vem do grego e, em seu sentido original, significa “dificuldade de suportar”. No universo profissional, ela descreve o descompasso entre o que alguém conquista e o quanto se sente merecedor ou satisfeito com isso. O termo também aparece em outros contextos — como na saúde (disforia corporal) e nas finanças (disforia financeira).

Uma sensação que se agrava com a velocidade em que as mudanças têm ocorrido atualmente, principalmente com a chegada da IA generativa. Em um mercado, competitivo e hiperconectado, a disforia de carreira se torna cada vez mais comum, especialmente entre aquelas pessoas que se cobram demais.

“É aquela máxima de olhar para a ‘grama do vizinho’ e se comparar. O problema é que a gente só vê o palco do outro, nunca o bastidor”, explica Priscilla Couto, especialista em carreira, liderança e gestão de pessoas, LinkedIn Top Voice e fundadora da PSC Consultoria.

Essa sensação de desencaixe profissional já aparece em números globais. Pesquisa da Gallup de 2025 revelou que apenas 45% dos trabalhadores têm clareza sobre o que se espera deles no trabalho, e menos de um terço diz se sentir conectado ao propósito da empresa. Para os autores do estudo, esse “grande desapego” está diretamente ligado à falta de reconhecimento e à dificuldade de enxergar sentido no que se faz.

Disforia de carreira x síndrome do impostor

A disforia de carreira pode ser facilmente confundida com a síndrome do impostor, mas os dois fenômenos têm raízes diferentes.

Enquanto a síndrome do impostor faz a pessoa acreditar que seu sucesso é fruto de sorte ou engano e que, a qualquer momento, será “descoberta”, a disforia ocorre quando o profissional reconhece suas conquistas, mas não se sente plenamente satisfeito com elas. É o sentimento de que “nunca é o bastante”. Mesmo quando há resultados concretos, ele sempre acha que está devendo algo.

Principais sinais da disforia de carreira:

  • Dificuldade de celebrar conquistas;

  • Rejeição de elogios;

  • Ansiedade em situações de visibilidade, como reuniões ou promoções;

  • Em casos mais graves, há quem recuse oportunidades por achar que não está à altura.

“Profissionais com disforia de carreira muitas vezes se sentem presos, sem motivação para se envolver nas tarefas diárias. A frustração e a irritabilidade passam a ser constantes”, afirma Soraya Haro, especialista em desenvolvimento de talentos.

Além disso, existem outros sinais que podem estar relacionados à disforia:

  • Dificuldade em se engajar em projetos;

  • Frustração e irritabilidade frequentes;

  • Comparações constantes com os outros;

  • Sentimento de inadequação ou incompetência;

  • Pensamentos recorrentes sobre mudar de carreira.

Impacto da disforia de carreira nas empresas

As redes sociais, segundo as especialistas ouvidas pelo Flash Humanidades, funcionam como um combustível poderoso para o problema, porque potencializam comparações.

“No LinkedIn e no Instagram, a vida do outro é sempre melhor. Perdemos totalmente a noção de que a realidade é diferente para as pessoas, mas a visão que temos de nós influencia também. Se tenho uma autoestima elevada, dificilmente essas comparações irão me afetar; caso contrário, elas podem se tornar um gatilho para o problema”, observa Priscilla.

Isso mostra que raramente a disforia aparece sozinha. Ela pode amplificar sintomas de ansiedade, alimentar a síndrome do impostor e até contribuir para o burnout. “A comparação constante nublou a visão sobre quem somos, afetando nossa produtividade, engajamento e até os relacionamentos no trabalho”, completa a especialista.

O impacto vai além do desempenho individual. Profissionais insatisfeitos tendem a se isolar e a participar menos, o que prejudica a colaboração e pode criar um ambiente de trabalho mais tenso e desconectado.

Como o RH e as lideranças podem agir

Para Soraya, lidar com a disforia de carreira é um desafio coletivo. “O RH deve atuar como facilitador, criando espaços de escuta ativa e programas de bem-estar e desenvolvimento profissional. Mais do que oferecer treinamentos, é sobre promover segurança psicológica”, destaca.

Gestores e RH também precisam atuar juntos para criar um ambiente acolhedor e transparente, capaz de reduzir comparações e fortalecer a autoestima profissional.

“É preciso que o RH treine seus líderes para conversas difíceis e também para feedbacks frequentes. Não apenas de correção, mas também de elogio, o famoso feedforward. Além disso, fomentar uma cultura diversa, com senso de pertencimento e livre de assédio, é fundamental”, reforça Priscilla.

Como identificar e lidar com a disforia de carreira

Entre os sinais que merecem atenção dos líderes estão colaboradores que evitam se destacar, rejeitam elogios ou demonstram queda de engajamento. “Conversas frequentes e observação atenta ajudam a perceber mudanças sutis de comportamento”, aconselha Soraya.

As especialistas sugerem estratégias simples, mas eficazes, para que os colaboradores também possam lidar com o problema:

  • Listar conquistas recentes;

  • Pedir feedbacks sinceros a colegas e líderes;

  • Reduzir o tempo nas redes sociais;

  • Praticar autocompaixão e mindfulness;

  • Buscar mentoria ou apoio psicológico quando necessário.

A disforia de carreira é um reflexo da pressão constante por sucesso e reconhecimento. Ao entender suas causas e agir preventivamente, empresas e profissionais podem construir um ambiente mais saudável, com propósito, equilíbrio e pertencimento.

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Ana Paula Sousa
Ana Paula Sousa

Ana Paula Sousa é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em Gestão de Imagem e Branding pela Universidade Anhembi Morumbi. Atua há mais de 20 anos na área de comunicação, com passagens por redações de jornais como Folha de S.Paulo e de revistas das editoras Abril e Globo. É especialista em estratégia de conteúdo, SEO e branding, com certificações em copywriting, storytelling e UX writing.

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